VELOCIDADE E VIDA INSANA
E, quando eu quis parar, só encontrei gente como eu. Gente que só sabia ser feliz, sinceramente, no
instante presente. Que, como eu, confessa que viveu, que do tempo intenso, inúmeras frações sorveu, mas que de enraizar esqueceu, que não se prendeu a nada que valeu, que
pautou a vida pela ideia da liberdade improvável de um semideus.
Vidas alucinadas, à deriva, em sentido, esvaziadas. Ao final, nada restando, se ficou sem nada.
No mundo em contínuo câmbio, um sólido sem-sentido da lugar a um sem-sentido líquido, mais atual.
Surgiram os que padeciam do mesmo mal, agora,
usuários turbinados, seduzidos por outras drogas: as mídias velozes e sua promessa de abrir
vidas fechadas, inundar no que estavam esvaziadas. Na técnica fria,
a ardente salvação tão esperada! Nas palavras
proféticas de Hannah Arendt, abre-se o tempo em que "a autonomia dos homens transforma-se na ditadura das possibilidades”. E, é na memorável frase de Marx, que encontro a força descritiva do estado das coisas no que se convencionou chamar de pós-modernidade, "tudo o que é sólido se desmancha no ar".No mundo em contínuo câmbio, um sólido sem-sentido da lugar a um sem-sentido líquido, mais atual.
Operam-se outros câmbios. O velho mal-estar moderno, gerado pela troca de um pouco de liberdade por um pouco de segurança, agora vira um novo mal-estar: o do excesso de liberdade
individual a custas de toda e qualquer segurança.
Como passamos a ter de ser felizes a qualquer custo, inchamos a dimensão íntima, onde tudo podemos, e acabamos por asfixiar a possibilidade de um privado partilhado. Na esfera pública, restou-nos o império da imagem e do simulacro. A procura de uma identidade, que sempre nos escapa atrás da próxima esquina, agora somos internautas, passadas ninfas sexistas, artistas, atletas, budistas ...
Em cada rolante sentimento, a incongruências das sequências, a fraca convicção, a mutante identidade, a pálida espiritualidade transcendente da última onda new age repaginada, a possibilidade do saber da superfície de tudo, a roleta rápida do sexo, os amores líquidos e a vida partida acelerada em gigabites. Tudo passa pelo filtro de um mundo virtual, pela telinha de um I-Ped, um I-Fone, um I-Desire..., onde simula-se o triunfo sobre a única permanência que realmente se enraíza, a solidão de eus partidos, incomunicáveis, perdidos entre multidões, deslizando na paisagem que já não se vê por que já se foi. Assim, tudo flui e tudo escorre...
Com novo layout, o velho desespero aponta no horizonte, como tudo, em rápida aproximação. No divã, pagamos o ingresso do próprio ato encenado. Enfim, algo permanente para compartilhar a exuberância árida deste jardim esterilizado.
Eliseo Martinez 30.06.2015