86.
Negociação
O globo mundo se materializa como um só e gigantesco mercado de novos e usados. Rastreia-se, ávido, vantajosos negócios nesta imensa tenda de andrajos. Tudo tem pressa e preço onde a morte do norte nega o ócio. Agora, não negociamos mais o velho projeto, mas novíssimos episódios.
Com razão cética, passamos a idolatria da mítica mercadoria: objetos, pessoas, imagens, sentidos, valores, amores, quem somos...; remarcada na contramão do que já foi natural e espontâneo entre a belicosa raça dos humanos. Ao que suporta a vida, conectamos inúmeras outras dependências, como se elas, de fato, contivessem essências. O real derrete e escorre virtualizado para o ocaso no tempo presente, já reciclado como entulho do tempo passado. Tudo é vertigem na rede descontínua do rizoma sem semente. A técnica traceja o processo todo sob o signo da eficácia, por difusas que sejam, nos meios, as táticas e vazias, nos termos, as resultantes falácias.
Avança o monopólio sob o ar respirado, no interior de instantâneos e frágeis consensos merceados. Calculamos o passo, atos, tempos e espaços, sentir e estares, sonhos escassos.
Negocia-se o "olá, que tal!" com indiferença casual, com o garçom mal-humorado, o estudante malformado, o sistema corrompido, o descaso da autoridade, com quem se deita ao lado, o último voto útil, a coação do inútil flanelinha, o TPM da vizinha, a balança e a pouca esperança, mas o consumo redime a tudo e quase nos encanta.
Assim avança a civilização, por graça da hostil resiliência dos homens em interação, movidos pelo horror de se ver e pela pulsão de pertencer, fazendo acontecer.
A mim, cada vez mais, parece uma sentença que nega a visão única de cada olhar, impedindo que o que é visto faça mudar, arrastando em cativeiro a formiga que afastou-se do carreiro.
Eliseo Martinez
22/10/2016