136.
Ode Embriagada
Que ingrato eu seria, se antes de ir-me de vez não abancasse ante uma botija de vinho para um penúltimo copo de tinto, dando contornos de névoa ao nítido traçado do nada a minha espera.
Despedindo-me do que nos cerca, prenhe de fúria e afeto, com fanfarra de banda que passa ou harmonia de orquestra na praça e, sem motivo de pressa, reciclar males na usina da alma, fazendo deles fumaça.
Como não ser grato ao sumo macerado a milhares de anos sob pés humanos?
Deus engarrafado, dos gênios o mais bem domado, pródigo em compor sabores para logo incensar ardores no coração de demônios, santos e homens.
Por seus dedos líquidos vêm à luz nostalgias, fazendo coçar velhas cicatrizes de alegria. Uma espécie de memória a certificar a própria história.
Assim como bem vindos à alcova dos amantes, são os cálices que tilintam em seus nomes.
Que mais nos amolece o olhar quando abatidos pelo punho cerrado dos dias além do que verte das vinhas?
Como melhor festejar o que virá, ou jamais se dará, senão com o rubi espremido do fruto redondo das vindimas?
Quando partidos, esquisitos, o vinho aproxima-nos de nós mesmos. Mas, também, nos leva ao desterro nas asas inebriadas do pensamento, travando os ponteiros do tempo.
Como a justificar a vida, o legado de Baco faz de míseros resquícios, beleza e indícios de sentido, colorindo o que repousa guardado, preto e branco em algum lado: amores, paixões, sons, imagens, lugares. Miragens que, para alguns, ornam o reino de bêbados e tolos. No entanto, o que faz cada um deles é mandar notícias de quem somos.
Sóis a deitar sobre rios, luas que convidam a esquecer das horas, rochas que tocam os céus de Meteora, onde o mosto fermentado das uvas revela naquelas torres nuas, que nem tudo é ciência ou arte ou sonho de gente, tampouco obra da mente. Nos olhos, apenas o mundo, e uma taça de vinho, ali, junto.
Quando estavas a meu lado, ou entre as bacantes que teu lugar ocuparam, o vinho foi bebido com desejo e sedes outras, ainda que vertido de ânforas de vida pouca.
Pelas noites varadas em tua companhia, entre copos, falas, beijos e melodias, ou na solidão dos monólogos ateus a busca de algum deus esquecido de partir por tanto néctar que bebeu, ainda pago tributo a Dionísio, se não mais feliz, o mais alegre dentre os deuses aqueus, recolhidos que estão aos banquetes do Olimpo.
Eliseo Martinez
22.06.2017