Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 29 de abril de 2018

191.


Portugueses são felizes


Portugueses são felizes
se imaginando tristes;
nós, sem perda de vastas terras,
tanto mar ou caravelas, nos pomos
entre os mais alegres que existem.
Nenhum está mais bem acomodado
no mundo que o outro, acredite.
É só um jeito de se ver,
uma versão de nós mesmos,
que põe o ar que convém
ao reinventado rosto que temos.

Eliseo Martinez
29.04.2018

sexta-feira, 27 de abril de 2018

190.

Quarto poder


Sai a investigar
o que se oculta
por trás da notícia.
Encontrei a Neutralidade,
dilatada sempre
pro mesmo lado,
em seu ofício diário
de esculpir realidade.
Tolerada pelos que
acham isto ou aquilo,
procurando por nada,
muito menos verdade,
esqueceu de mudar de nome,
a safada.

Eliseo Martinez
27.04.2018

quarta-feira, 25 de abril de 2018

189.

Breve


Um corpo se estende
ao lado doutro.
O sono profundo cogita as sortes
enquanto ensaia a morte
dos amantes.
Os vestígios, são insones,
se eternizam como diamantes.

Eliseo Martinez
25.04.2018

terça-feira, 24 de abril de 2018

188.

Terrorista


Uma revoada de gralhas lhe entrou pela mente
para ali fazer ninho em meio ao grasnar estridente
e o feito não se prestou mais a ser desfeito.
Sem algo outro que lhe desse jeito,
o trôpego passo foi dado à frente,
enquanto o propósito insólito se mantinha quente.
Para tornar breve uma longa história,
o que tanto foi ensaiado em sono,
foi encenado finalmente,
fazendo da ideia, imagem;
do terror, a mais infame coragem.

Eliseo Martinez
24.04.2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018

187.



Confirmado o oráculo,
traição, ardis, assassinatos,
se batem súditos escoceses
por trono, terras, reses.
Que cores turvas tingem
a branca alma de Macbeth
pelo poder que agora quer?
Nem mesmo a ele foi,
por bruxa ou mago, revelado
que, ao banir o medo,
o mais perverso aliado,
se veria ele só em seu 
sangrento reinado.

Eliseo Martinez
23.04.2018

sexta-feira, 13 de abril de 2018

186.

Rios de tinta

Rios de tinta escorrem há muito pela terra,
em úmidas tumbas, paredes de cavernas.
Tingiram papiros, pergaminhos e, à luz de velas,
folhas de papel até se desfazerem, amarelas,
para ressuscitar, em rede, nos ecrãs das telas.
Rios de tinta estão no vazio dos rabiscos pichados
em muros mal caiados, ensaiados,
que foram, nas portas de imundos sanitários.
Rios de tinta correm além dos registros de negócios,
bilhetes de adeus, lembranças dos muitos portos,
cartas de amor, sentenças de morte.
Alimentam a história na ilusão das vitórias
ou no sucinto relato dos próprios fracassos,
evocando heróis, chamados por outros, carrascos.
Rios de tinta imaginam marcar o desesperado encontro
entre os que desenham os signos
decifrados nas palavras de tomos inteiros
e os personagens dos contos contados por eles mesmos,
jamais chegando a ser mais, em verdade,
do que o testemunho selado com o verbo congelado
no irremediável desencontro a que se veem condenados.

Eliseo Martinez
13.04.2018

quarta-feira, 11 de abril de 2018

185.




Falando em filmes e livros,
homens são, mesmo,
seres estranhos.
Por vezes, emoções que os tocam,
dão nó nas gargantas,
rolam pelo canto dos olhos
embargando as vozes,
se manifestam, reverberadas,
mais fortes
do que o que anda a sua volta,
à distância de um toque.

Eliseo Martinez
11.04.2018

sábado, 7 de abril de 2018

184.

A onda

Uma onda se avoluma,
engolindo terra fértil, rocha nua.
Avança sobre campos semeados,
reconheçamos, mal plantados.
Impedindo colheitas, ainda assim,
melhores que as colheitas do passado,
prenunciando fomes que se alastram
com o retorno de extintas pragas.
A vaga destruidora,
contida por breve tempo,
segue encobrindo
o que faz desta vasta roça,
seara da injustiça nossa,
onde, para os que nela carpem,
pouco fique além da esperança morta
e a vida a latejar aflita,
sob o jugo covarde
de hábeis ilusionistas.

Eliseo Martinez
06.04.2018

quinta-feira, 5 de abril de 2018

183.



Tantas afinidades despedaçadas!
Nada mais aterrorizante
que o cruzar dos semelhantes...

Eliseo Martinez
05.04.2018

domingo, 1 de abril de 2018

182.

Catedrais da fé


Sob o olhar atento do cego,
a voz do mudo se fez ouvir
pelo ouvido mouco do surdo
anunciando o indizível
que se vai ecoando no mundo.
E o turvo verbo proferido
uniu homens em olhos d'água
como se fundem coágulos,
por graça de medo e mágoas.
Multidões famintas,
de fomes infindas,
por fim, redimidas,
de todo o coração, agradecidas,
levantam o derradeiro estandarte
da verdade, enternecidas,
fazendo com que o ódio cego
se espalhe pelos novos devotos
da irmandade.
À sombra da tenda dos milagres,
prosperam negócios rentáveis.

Eliseo Martinez
01.04.2018