Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

207.


Leonard, sem pressa


Bem vindos são os momentos
em que o frenesi dos tempos
se permite escorrer mais lento.
Ao vendaval do rock,
encastelado nas paradas,
respondeu o folk como brisa
a soprar livre pelas estradas.
Como um pássaro pousado
sobre um fio energizado...
Assim foram as músicas
de quem nos deixou de corpo,
mas permanece no som arrastado,
quase falado, de sua voz rouca.
O menestrel de Montreal que
desarmou irmãos em armas
com versos mais certeiros
do que balas de morteiros.
O irreverente canadense que
embalou multidões de dissidentes
de todas as vertentes, dentro e fora
das fronteiras estadunidenses.
O lendário amante que
deitou com Janes Joplin
depois de esbarrarem ambos
no Chelsea Hotel, em Nova York.
O monge budista,
nascido sob o signo de um plátano,
que se fez artista e sábio,
herdando acordes de um violinista
seduzido pela morte.
Do alto da Torre do Som,
Leonard Cohen vive para sempre
nas letras de suas canções,
nas histórias que deixou,
na doçura com que falou aos corações.
Sua poesia será sempre um alento
para aqueles que se querem apaziguados
ao sessar a fúria dos ventos
que partem do globo mundo
para soprar peito adentro.

Eliseo Martinez
13/18.08.2018

domingo, 12 de agosto de 2018

206.

Hoje, me fui

Hoje, me embretei por sabores,
tingi de rubi um cristal barato,
me perdi nos licores,
comi chocolate.
Dei uma banana pro colesterol,
pra pressão alta e o escambau.
Deixei doer a dor guardada
e saímos os dois lado a lado,
a passear de braços dados,
sob o sol de inverno
de um dia gelado.
Hoje, fui feliz como ímpar.
Fui, sim.
Livre da culpa de andar só,
sem um outro a pensar
e sentir feito um nós.
Vivi a melancólica alegria de estar
com meus eus reunidos,
mediando seus sussurros,
impropérios e gritos.
Hoje, sem temor, dispensei a corte
e vomitei verdades pra todo o lado,
na avant premier do que aguardo sentado,
numa sala vazia cheia de objetos caros.
Decidi, só por hoje, andar peito aberto.
Parece que o Minuano
vai se pôr a soprar todo o ano...
Amanhã, lá pelas seis e um quarto,
volto a ser artista performista,
quando acordar em meu quarto,
já sem as luzes do neon esverdeado
do Motel Botafogo, na rua ao lado.

Eliseo Martinez
12.08.2018