281.
Felicidade
Das quimeras idealizadas na formidável oficina do intelecto humano, a exemplo de tantas ilusões que podemos dar nome de "amor" ou "liberdade" ou "paz" ou "justiça"..., realidades imaginadas, só existentes na mente dos homens, talvez, a mais fantástica seja a que, por ora, se encontra sem uso, encoberta pela maré de desesperança destes tempos de desencanto.
Falo da poderosa ideia-força que a milênios alavanca o destino de pessoas, quando não de povos inteiros, apontando o norte para a intenção e o gesto dos homens, definindo-lhes sentidos e valores à vida.
A noção de felicidade anda meio esmaecida, num horizonte que puxamos mais para perto de cada um de nós mesmos, como que para toca-lo com os dedos, pelo excesso dos medos, além da miopia que marca estes dias.
A própria palavra "felicidade" já não é ouvida das bocas, no cotidiano das pessoas e parece só não ser esquecida pelo uso que dela fazem as artimanhas da propaganda à venda de sonhos, invariavelmente fantasiosos, que prometem um antes e um depois da coisa a ser consumida por felizes consumidores.
Que os tempos interferem no inconsciente coletivo é certo e, também, sabido.
No entanto, esse saber nem sempre é aplicado quando paramos e nos perguntamos quem somos ou como estamos.
Sem o perceber, cada um de nós é a esponja, para não dizer o ralo, do mundo.
O mesmo ocorre com a velha crença egocêntrica em um deus que segue colado ao cangote de cada crente.
É como creio que se justifique a introjeção por parte dos indivíduos da enorme massa de sofrimento que emana de fatos exteriores a eles, um algo a mais do mal que fornece a insólita substância da era marcada pelo descaso e pela depressão, num universo próspero em solidão.
Que mais se espera da ideia de felicidade do que a idealização de um continuado estado de satisfação?
É possível imaginar cenário menos desafiante, já pintado e emoldurado, onde a contrariedade e o contraditório foram banidos do imaginado?
Ou algo mais estressante do que um ininterrupto estado de contentamento a sobrecarregar nosso fragilizado sistema nervoso?
Será que a esperada satisfação não seria mais afeita às construções da vontade, à atividade consciente, ao estímulo do desafio e a ambicionada conquista, além do inesperado do acaso, que de tudo é parte?
Alguma luz a ser jogada sobre o que se convencionou chamar de "felicidade" não teria mais chance de surgir das questões que pudermos formular do que das fórmulas que insistimos em eternizar?
De qualquer modo, antes que se saia à busca do graal da felicidade, há de se reconhecer que sua evocação sugere mais do que ela naturalmente poderia oferecer.
Saindo de dentro para fora de suas possibilidades, pelo menos algo pode ser afirmado: o que se espera deste sentimento atmosférico não resistiria a ação do tempo, pois o que seria mais tedioso do que a perfeição que se estende a um ponto cego do infinito, feito um comboio que desliza sobre o brilho ubíquo de trilhos, sempre igual a ela mesma e sem o zumbido da mosca do diferente instigando nossas mentes?
Ou todos deveríamos nos assumir como conservadores penitentes, na sagrada missão de congelar o novo a frente?
Não são poucos os obstáculos à utopia da felicidade.
Em verdade, eles são tantos quanto as gotas de um pequeno oceano capaz de afogar os devaneios do primeiro ao último dos seres humanos.
É só pensar no mal natural à barbárie ou no imenso peso da civilização sobre os ombros de um vivente; os medos e condicionamentos subterrâneos à consciência; a ideologia que não criamos, mas nos cria desde sempre; a conta cobrada pelo dever-ser da moral; os desejos inconfessos e a vontade de ser deus; as culpas que vêm com o branco dos cabelos; o jugo do trabalho; os muros de todo o tipo; o vasto leque das misérias; a lixeira em que se transforma o planeta e a física da gravidade que a ele nos sujeita; o fantasma das fomes todas e o prenúncio do fim; os conservantes adicionados à tônica e o preço majorado do gim...
Portanto, em matéria de felicidade, pouco mais nos cabe que grãos de satisfação salpicados nas cores pálidas do arco-iris a impressionar nossa retina e não a fábula do pote de ouro que tolamente nos pomos à procura, como fosse este o imperativo do destino, mais um fenômeno da percepção que expõe nossa singular capacidade de crer em coisas que não existem na natureza, mesmo que por elas se mate ou se pereça, na certeza de quase tocar nossas mais caras miragens.
Eliseo Martinez
15.01.2020
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
280.
O Mal
Quando nos sentimos perdidos
e parece não restar onde ir,
nosso caminho já pode estar traçado,
fazendo de cada canto outro espaço
que não fazemos parte.
E o mal maior,
que se fez grande por devorar vontades,
também do lugar nenhum
em que nos encontramos,
tomou posse, vindo não de fora,
mas do oco cavado em nós,
sem intenção de se ir embora.
Nêmesis destes tempos,
sem rasgar carne ou quebrar osso,
conduz legiões a tormentos sem consolo,
muito menos, seguro retorno.
Na boca de todo o mundo,
o nome com que te chamam
é o mesmo que me recuso,
maldição de muitos,
na cautela de evitar teus olhares
e eu me ver a seguir-te
como outro de teus legionários.
Eliseo Martinez
05.01.2020
O Mal
Quando nos sentimos perdidos
e parece não restar onde ir,
nosso caminho já pode estar traçado,
fazendo de cada canto outro espaço
que não fazemos parte.
E o mal maior,
que se fez grande por devorar vontades,
também do lugar nenhum
em que nos encontramos,
tomou posse, vindo não de fora,
mas do oco cavado em nós,
sem intenção de se ir embora.
Nêmesis destes tempos,
sem rasgar carne ou quebrar osso,
conduz legiões a tormentos sem consolo,
muito menos, seguro retorno.
Na boca de todo o mundo,
o nome com que te chamam
é o mesmo que me recuso,
maldição de muitos,
na cautela de evitar teus olhares
e eu me ver a seguir-te
como outro de teus legionários.
Eliseo Martinez
05.01.2020
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