Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."Antônio Machado
286.
Afetos nascem e, por vezes, vingam,
indiferentes ao solo árido do entorno,
somando-se ao que somos.
Alguns secam como galhos
que não dão flores
e ficam retorcidos ao desabrido
das folhas que se foram,
resumindo-nos ao que estamos.
Eliseo Martinez
29.03.2020
285.
Geminiano
Às vezes,
me vejo metido entre as páginas de um livro
ou cerzindo retalhos da memória
ao som de velhos discos,
revisitando pessoas e lugares antes vistos.
Outra vezes,
a pretexto de dar forma,
sou o que fere a golpes de formão
o que oscilou ao vento e germinou do chão
ou aquele que anda pelas ruas que lhe chamam,
nem sempre livre dos incômodos do corpo
que vêm com os anos.
Há, também, neste meu pequeno mundo
as duas luas que dão equilíbrio
ao giro oblíquo de Saturno.
Gostar, sob olhos outros, esquisito,
mas que sabem eles disso?
Das coisas do amor vivido,
o mais certo é uma espécie de dor
que deles ficam, de resto, é criação coletiva,
sem receita que se siga.
Neste espaço preenchido de eu,
me encontro desencontrado,
como um velho barco ao jogo d'água,
desapressado do rumo dado.
É, ainda, o lugar onde convivo
com os que em mim habitam,
visconde renegado de seus títulos,
partido pelo crivo de cem ítalos.
Ao abrigo de uma única morada,
esses outros, me aparecem do nada,
sem que os tenha convidado.
Uns arrebatados, que me içaram vela adiante;
outros, mais cautelosos,
que me ancoraram feito ganchos.
Sabe-se lá o que seria se,
por deszelo das agendas,
todos se encontrassem algum dia,
tamanha confusão que se ia instalar
na pequena multidão desses ímpares sem par.
Das verdades falseadas
resta que estamos sempre a passar
e somos mais do que o espelhoembaçado do banheiro
é capaz de nos mostrar.
Das trombetas do desejo,
ruidosas no passado,
me ocupo, no presente,
do mau jeito dessa gente.
Cada qual, por seus atalhos,
vem acompanhado dos que, juntos,
fizeram o caminho até aqui andado.
Boa parte se foi sem mais alarde,
uns mais cedo outros mais tarde.
Alguns visitam-me em sonhos.
São os fantasmas que me acompanham.
Aqueles que, já não sendo vistos,
estão sempre comigo e comigo estarão até o fim
do que a muito teve início.
Agora, já curado da loucura
com que a maldita lucidez,
ao pé do ouvido, nos sussurra
que para o que partiu
não há mais costura.
Já foi dito por um outro que admiro
"amores que matam nunca morrem",
ao que replico, eles se metem em nós
e, enovelados, mais ao fundo ficam.
Há, ainda, os que mesmo dos sonhos sumiram,
comprovando a pouca falta que fazem,
tal o empenho de nos terem esquecido.
Astrólogos afirmam que os astros nos explicam,
para cada geminiano dizem haver dois,
em mais um de seus enganos.
Que faço eu dos outro todos?
Digo que se escondam
ou melhor seria se combinado
um suicídio coletivo para o próximo feriado?
Diz que me conheces.
Pobre tolo!
Sou tantos que, não raro,
mesmo eu me sou estranho.
Eliseo Martinez
22.03.2020