Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

327.

Coisas perenes


Dia a dia,
do Oriente ao Ocidente,
os céus varrem de luz
o vasto mar
e a diversidade das terras.
Do carmim de uma alvorada
rajada de fios alaranjados,
irrompem os primeiros
raios dourados,
alongando sombras na praia,
à espera de ser ensolarada.
Na transparência esverdeada
das ondas que se renovam,
crepitam cristais de sal
à pele d'água.
A massa líquida oscila
no giro da esfera azulada,
imersa no vácuo do espaço,
seduzida por sua lua de lata.
Mansamente,
explode por toda a parte
uma beleza anterior a arte.
Nada perturba esta harmonia
feita de movimento,
nuances de cores
e temperos de maresia,
nem peixe que nada,
nem voo de ave
ou furiosa tempestade
que mova os ares,
muito menos o passo lento
da criatura nua
riscando a areia úmida
no rastro das pegadas suas.
É o momento em que se revela inútil
buscar sentidos ao que não necessita,
dispensando o enfeitiçado
do apelo ao feiticeiro.
Alheia ao bem e alheia ao mal,
a natureza se manifesta
desde o fundo dos tempos
e mesmo com breve engenho
insano do pensamento,
ímpetos suicidas
ou ilusões definitivas,
volta a ser o que foi sempre,
até que, mais uma vez,
se torne semente.
Reunidos num único grão,
o pulso da vida
e a pulsão de morte
é testemunhada pelos que vivem
sob a ronda das Parcas.
Raro momento de sorte.

Eliseo Martinez
25.02.2021

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

326.

Razão e afeto


Dois fios ligam os homens
para além daquele
que nos ata à necessidade,
aglutinando cada um
ao todo da comunidade.
Fios que também estão ali,
entre familiares, amigos e vizinhos,
mas que lhe transcendem
pela natureza intrínseca
a esfera da moral e da ética
e do instinto próprio da espécie.
São os fios da razão e do afeto,
que operam tanto longe quanto perto,
entre próximos e distantes,
estranhos ou amantes.
Que mal maior pode atingir-nos
do que ter esses fios danificados
ou, mesmo, partidos?
Que distâncias nos separam
quando eles são rompidos?
O povo de um certo cristo
obteve seu triunfo irretorquível
ao introduzir em seus mitos fundadores
um vigoroso simbolismo,
capaz de ser, não compreendido,
de fato, mas facilmente reproduzido,
dando eco e algum prático sentido
a percepções primordiais
inscritas no códice de nossas mentes,
tatuadas nos corpos de toda a gente,
acessíveis ao comum dos humanos,
então e sempre.
Mensagens que satisfazem
a necessária preservação da espécie,
com certa dose de homeostase
a lhe normatizar o presente
ao mesmo tempo que promete
um futuro menos incerto e mais seguro,
como prega o beato,
"amai-vos uns aos outros",
de alcance bem mais amplo
do que versa o texto religioso.
Com passo lento avançamos
e hoje proliferam termos e conceitos
que, a isso, dizem respeito.
Empatia, resiliência,
tolerância, argumento
e, guardadas sensibilidades de classe
quanto à "totalidade",
também, holístico,
formam alguns dos exemplos perfeitos
do que acaba de ser dito,
fazendo parte do que existe
sem que, por isso,
seja de pronto visto.

Eliseo Martinez
01.02.2021