327.
Coisas perenes
Dia a dia,
do Oriente ao Ocidente,
os céus varrem de luz
o vasto mar
e a diversidade das terras.
Do carmim de uma alvorada
rajada de fios alaranjados,
irrompem os primeiros
raios dourados,
alongando sombras na praia,
à espera de ser ensolarada.
Na transparência esverdeada
das ondas que se renovam,
crepitam cristais de sal
à pele d'água.
A massa líquida oscila
no giro da esfera azulada,
imersa no vácuo do espaço,
seduzida por sua lua de lata.
Mansamente,
explode por toda a parte
uma beleza anterior a arte.
Nada perturba esta harmonia
feita de movimento,
nuances de cores
e temperos de maresia,
nem peixe que nada,
nem voo de ave
ou furiosa tempestade
que mova os ares,
muito menos o passo lento
da criatura nua
riscando a areia úmida
no rastro das pegadas suas.
É o momento em que se revela inútil
buscar sentidos ao que não necessita,
dispensando o enfeitiçado
do apelo ao feiticeiro.
Alheia ao bem e alheia ao mal,
a natureza se manifesta
desde o fundo dos tempos
e mesmo com breve engenho
insano do pensamento,
ímpetos suicidas
ou ilusões definitivas,
volta a ser o que foi sempre,
até que, mais uma vez,
se torne semente.
Reunidos num único grão,
o pulso da vida
e a pulsão de morte
é testemunhada pelos que vivem
sob a ronda das Parcas.
Raro momento de sorte.
Eliseo Martinez
25.02.2021