Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 5 de maio de 2021

343.

Provocações:  Rastros


Mestres da palavra escrita
ousaram escrever
sobre tudo que lhes fizesse
vibras as cordas da alegria.
Do que paira nos altos do Parnaso
às coisas miúdas do dia a dia
que, facilmente,
nos passam desapercebidas.
Neruda viu poesia
nos pequenos objetos
espalhados pela casa,
na batata frita, no tomate...
Mas, isso é lá para os poetas
sem idade,
que venceram o tempo
conquistando a eternidade.
De uma forma mais modesta,
te proponho, aqui,
exercício menos solitário,
com a ajuda dos que passaram.
Penso no que fica pelas margens,
à força do curso que nos arrasta;
das pegadas deixadas pelos pares.
Hábitos que, pouco a pouco,
vão se incorporando
a nosso pequeno cotidiano,
sem o que,
quase não reconheceríamos
quem somos.
Na microfísica das rotinas,
as primeiras horas da manhã
já podem vir repletas dessas pistas.
Entre o mar dos lençóis
e a primeira refeição,
muitos são os rastros
deixados neste vão.
Assim,
houve quem legasse a granola,
houve quem legasse mel e mamão
e, antes, houve quem legasse
o copo de água morna
com o suco de um limão.
Ao que dá gosto ao pasto
a nos matar a fome,
o coentro e o sal do himalaia
e a pimenta de cheiro
para os pratos mais ligeiros.
Para o alimento do corpo,
como abrir mão da berinjela,
da abobrinha e da ervilha torta,
de uma;
o presunto cru e do filete de anchova,
de outra;
do salmão e do bacalhau às natas,
de uma terceira passageira;
sem esquecer da couve-flor
à milanesa e do creme de ervilhas
fumegando sobre a mesa.
Ah! Os risotos feitos com esmero
e a paella da Dona Margarida,
dos festejos de anos de vida...
No limite entre a matéria e o espírito,
deixaram de bom grado o chimarrão,
o Porto, o Drambuie
e o vinho nosso de todo o dia.
Também para a alma,
não ficou pouco.
Falo dos filmes; das músicas;
dos  cafés e dos poetas;
das comidinhas na madrugada;
de outras tantas literaturas;
das idas ao mundo
e das caminhadas na orla juntos...
Mas, de tudo, foram os sorrisos
e os olhares que se encontraram;
os passos de dança na cozinha
e o amor sem hora
que ondulam doces
nos varais da memória.
E quanto a você?
O que deixaram em teus dias
os que contigo já não brincam?

Eliseo Martinez
05.05.2021