Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 29 de junho de 2021

345.

Os trabalhos e os dias


Como saído dentre
os glúteos do tempo,
acostumou-se a ver
o dia se fechar em
insólitos movimentos.
O que lhe aflige
no turno diurno,
de súbito, desliza
pelo fundo sinuoso
de um túnel.
Ante olhos confusos,
a realidade tremula
em véus rajados
de um alaranjado sujo,
feito rasuras,
dessas que se veem
pichadas pelos muros.
Tudo passa a ser rodado
como filme sonhado,
revisto em preto e branco,
quadro a quadro,
por trás da lente baça,
e trilha de guizos de aço.
Já não lembra dos rostos,
das falas, dos nomes.
Nada que valha
foi gravado no rolo.
A cena toda é lavada
a baldes d'água
e, logo, desvanece na tela.
Enquanto a memória
se desfaz lentamente,
a melancolia preenche
os abismos do peito
e o vazio se distende.
Se houvesse sementes,
semearia o que sente
para não esquecer outra vez
da interminável jornada
a lhe devorar o presente.
Mas, que estado é esse
que se instala sempre
que o dia declina e cai
e as velas negras da noite
se aproximam do cais?
Subindo as escadas,
afrouxa o nó da gravata,
saca a chave do casaco
e abre a porta de casa.
Quase aliviado,
tranca o mundo
do lado de fora.
Ao menos, é o que finge
acreditar, nessa hora.
A final, convém
ao iludido iludir-se,
validando ilusões que persistem.
Mas o visgo de onde veio
não tarda a pingar do teto,
escorrendo pelas paredes,
encharcando o carpete
do lado de dentro
da cela de concreto.
Três ferrolhos
travados à entrada
garantem que, nem ali,
no recluso da morada,
vigoram salvos condutos
ou seguros de nada.
Inspeciona com cuidados
de funcionário cada cômodo
do pequeno apartamento,
onde faz companhia
apenas a ele mesmo.
É preciso aplacar
temores noturnos,
que costumam habitar
os cantos escuros.
Olha em baixo da cama,
atrás das portas,
afasta as cortinas.
Certifica-se de que
ninguém mais além dele
altere os ritos da rotina.
Senta-se antes de algo
importante a ser feito,
que logo já não lembra,
e acaba ali mesmo,
exausto, desfeito.
Quem sabe, hoje,
sonhe em cores
o pobre homem,
e tenha o que se contar
na manhã seguinte,
no banco do ônibus,
a caminho do que
lhe rói as entranhas
e, na sexta, adianta o salário
para o final de semana.
E, no cansaço do jogo
ainda não jogado,
repete o mantra diário:
mais um dia, dia de trabalho...

Eliseo Martinez
29.06.2021

quinta-feira, 24 de junho de 2021

344.

Musa fujona

Calíope se mandou!
Escafedeu-se de meus versos,
sem bilhete de despedida
ou indício de paradeiro certo.
Para dar fim ao silêncio
que se apossou de meu traço,
vasculhei terra acima,
mar ao meio, céu abaixo,
sem rastro que dê conta
de seus passos.
Simplesmente, foi-se!
Quem sabe ainda volte
e com ela as palavras
que ora me faltam,
como sempre,
com ou sem jeito,
enamoradas da vida,
a afugentar a morte.
Tempos obscuros,
em que mesmo as musas
emudecem ante
ao que passa no mundo,
com todo o barulho,
cada vez mais mudo,
cada vez mais surdo!

Eliseo Martinez
24.06.2021