345.
Os trabalhos e os dias
Como saído dentre
os glúteos do tempo,
acostumou-se a ver
o dia se fechar em
insólitos movimentos.
O que lhe aflige
no turno diurno,
de súbito, desliza
pelo fundo sinuoso
de um túnel.
Ante olhos confusos,
a realidade tremula
em véus rajados
de um alaranjado sujo,
feito rasuras,
dessas que se veem
pichadas pelos muros.
Tudo passa a ser rodado
como filme sonhado,
revisto em preto e branco,
quadro a quadro,
por trás da lente baça,
e trilha de guizos de aço.
Já não lembra dos rostos,
das falas, dos nomes.
Nada que valha
foi gravado no rolo.
A cena toda é lavada
a baldes d'água
e, logo, desvanece na tela.
Enquanto a memória
se desfaz lentamente,
a melancolia preenche
os abismos do peito
e o vazio se distende.
Se houvesse sementes,
semearia o que sente
para não esquecer outra vez
da interminável jornada
a lhe devorar o presente.
Mas, que estado é esse
que se instala sempre
que o dia declina e cai
e as velas negras da noite
se aproximam do cais?
Subindo as escadas,
afrouxa o nó da gravata,
saca a chave do casaco
e abre a porta de casa.
Quase aliviado,
tranca o mundo
do lado de fora.
Ao menos, é o que finge
acreditar, nessa hora.
A final, convém
ao iludido iludir-se,
validando ilusões que persistem.
Mas o visgo de onde veio
não tarda a pingar do teto,
escorrendo pelas paredes,
encharcando o carpete
do lado de dentro
da cela de concreto.
Três ferrolhos
travados à entrada
garantem que, nem ali,
no recluso da morada,
vigoram salvos condutos
ou seguros de nada.
Inspeciona com cuidados
de funcionário cada cômodo
do pequeno apartamento,
onde faz companhia
apenas a ele mesmo.
É preciso aplacar
temores noturnos,
que costumam habitar
os cantos escuros.
Olha em baixo da cama,
atrás das portas,
afasta as cortinas.
Certifica-se de que
ninguém mais além dele
altere os ritos da rotina.
Senta-se antes de algo
importante a ser feito,
que logo já não lembra,
e acaba ali mesmo,
exausto, desfeito.
Quem sabe, hoje,
sonhe em cores
o pobre homem,
e tenha o que se contar
na manhã seguinte,
no banco do ônibus,
a caminho do que
lhe rói as entranhas
e, na sexta, adianta o salário
para o final de semana.
E, no cansaço do jogo
ainda não jogado,
repete o mantra diário:
mais um dia, dia de trabalho...
Eliseo Martinez
29.06.2021