353.
Criação
Potências irresistíveis se propagam pelo espaço,
irradiando-se por mundos inimagináveis,
transpassados por cataclísmicas tempestades,
inoculadas pelos poros e redes de condutores,
à passagem desses assassinos criadores,
no pulso uno e contínuo desde origens sem início.
Dissolvem-se os rudimentos evolutivos
ante demiurgos que passeiam em plenitude
pelos berçários de anomalias
por eles criados, como tudo.
Povoando de seres os domínios do nada,
princípios ininteligíveis para a física
espalham sementes de ordem
pelos campos da desordem, ora iluminando o âmago das trevas,
ora extinguindo fulgurantes esferas,
a produzir hecatombes flamejantes
entre o que, pelos túneis de extermínio,
do lado oposto, ainda virá a ser outro,
recriado tantas e tantas vezes
que não há número que os conte.
Rastros de astros incandescentes
cortam o frio extremo do meio congelante.
Sem registro do que seja acima ou abaixo,
perto ou longe, tudo é fúria e movimento
em meio ao silêncio do vácuo, eternamente...
À natureza entrópica da matéria
funde-se o minúsculo efeito
produzido por colônias de organismos,
em seus átomos de carbono,
feito germes, vírus, humanos
sob o ronco surdo do giro dos motores.
Energias incontidas,
com que a trama do tempo é tecida,
fecundam o útero inchado do espaço,
sujeito aos imponderáveis elementos do acaso,
onde tudo é um e contrário a si mesmo.
Sem jamais expor à luz os ombros nus,
mistérios insondáveis germinam em toda a parte,
inaugurando as vastas pradarias da existência,
agora e sempre, indiferentes
ao que o frágil acordo das mentes
nomeou vida, simplesmente.
Realidades tão distantes de nosso entendimento
como o vazio sem fim que se derrama
para além do último corpo celeste
a orbitar a última estrela do errante multiverso.
E, no entanto, a teia viva lateja,
expandindo e colapsando sobre si mesma,
para voltar como singularidade, novamente,
a expandir-se, sem desvelar seus segredos
ante nossa pálida consciência e vívidos medos.
Eliseo Martinez
15.10.2021