Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 31 de outubro de 2021

354.

Chilique ateu


Tu que insiste em nos querer
ver encaixotados,
nos  enquadrar em teu quadrado,
mas resiste em se espraiar
em nossa praia.
Tu que crê poder caber
Nova York em Nova Brescia,
fazer passar o trem em festa
pelo vão da porta aberta.
Tu que dá créditos ao criador
e desconhece a criatura,
que diz amar a música,
mas rasga a partitura.
Tu que oras piedosa
antes de te pôr sob as cobertas,
mas exalta falsos messias
e seus sectos de idiotas.
Além da pouca fé,
desculpe a falta de jeito
e a língua afiada
dos que nunca contaram
com os céus prá nada.
Manda emoldurar
teus pensamentos tortos,
pensados pelos há muito mortos
e pendura junto ao gesso
da santinha que te promete
melhor sorte.

Eliseo Martinez
31.10.2021

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

353.

Criação

Potências irresistíveis se propagam pelo espaço,
irradiando-se por mundos inimagináveis,
transpassados por cataclísmicas tempestades,
inoculadas pelos poros e redes de condutores,
à passagem desses assassinos criadores,
no pulso uno e contínuo desde origens sem início.
Dissolvem-se os rudimentos evolutivos
ante demiurgos que passeiam em plenitude
pelos berçários de anomalias
por eles criados, como tudo.
Povoando de seres os domínios do nada, 
princípios ininteligíveis para a física
espalham sementes de ordem
pelos campos da desordem,
ora iluminando o âmago das trevas,
ora extinguindo fulgurantes esferas,
a produzir hecatombes flamejantes
entre o que, pelos túneis de extermínio,
do lado oposto, ainda virá a ser outro,
recriado tantas e tantas vezes
que não há número que os conte.
Rastros de astros incandescentes
cortam o frio extremo do meio congelante.
Sem registro do que seja acima ou abaixo,
perto ou longe, tudo é fúria e movimento
em meio ao silêncio do vácuo, eternamente...
À natureza entrópica da matéria
funde-se o minúsculo efeito
produzido por colônias de organismos,
em seus átomos de carbono,
feito germes, vírus, humanos
sob o ronco surdo do giro dos motores.
Energias incontidas,
com que a trama do tempo é tecida,
fecundam o útero inchado do espaço,
sujeito aos imponderáveis elementos do acaso,
onde tudo é um e contrário a si mesmo.
Sem jamais expor à luz os ombros nus,
mistérios insondáveis germinam em toda a parte,
inaugurando as vastas pradarias da existência,
agora e sempre, indiferentes
ao que o frágil acordo das mentes
nomeou vida, simplesmente.
Realidades tão distantes de nosso entendimento
como o vazio sem fim que se derrama
para além do último corpo celeste
a orbitar a última estrela do errante multiverso.
E, no entanto, a teia viva lateja,
expandindo e colapsando sobre si mesma,
para voltar como singularidade, novamente,
a expandir-se, sem desvelar seus segredos
ante nossa pálida consciência e vívidos medos.

Eliseo Martinez
15.10.2021