Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 25 de abril de 2022

387.

Mural de recados


Procura-se pelo irremediavelmente perdido
entre o ralo do tempo escorrido
e os véus do que foi parcialmente esquecido.
Algo que desperta, selvagem e irreverente,
na inocência do frescor adolescente,
fazendo bater o que resta de indomado
no peito de toda gente.
Ando a procura de amores inventados,
desses que se encontram em parte alguma
apartados dos livros,
mas nutridos da rara energia
que os mantém sempre vivos.
Ando a caçar fantasmas de extintos cavaleiros
ocupados com o giro dos cata-ventos,
as fontes do arco-íris,
presságios de estrelas cadentes
a lhes alegrar os recreios
antes das novas contendas
com velhos moinhos de vento.
Acima de tudo, me interessam nuances,
detalhes, dissemelhanças...
Me agrada a graça dos desencaixados,
os sorrisos livres de vaidades,
o foco impreciso dos olhares perdidos,
o garbo dos desalinhados,
o caleidoscópio da mistura das raças.
Caso seja avistado rastro ou cheiro
do acima mencionado,
aqui mesmo ou em qualquer lado,
favor deixar aviso ligeiro
em algum mural de recados.
Quem sabe, nesta busca improvável,
encontre ainda mais que procure
e acalme o ruído de fundo,
que não é ruído a ser ouvido,
mas rangido desassossegado do espírito.

Eliseo Martinez
25.04.2022

terça-feira, 12 de abril de 2022

386.

Ideologia

Sim! Com o declínio dos mitos,
já sem serventia aos novos burgueses,
herdeiros do baú de vícios antigos,
os dominantes tramaram a ideologia,
fazendo crer aos dominados
que era de seu próprio pensar
que seu pensar surgia.
Sim! A mentira das classes dissolvidas
no singular dos indivíduos,
feitos órgãos isolados a despeito de unidos
num mesmo organismo,
seduziu os que com o trabalho fazem
cada vez mais ricos os do andar acima,
partindo os laços entre iguais em ofício.
Sim! Ocultando as raízes econômicas
dos degraus da desigualdade,
neste universo de falsas facilidades,
como não se culparem,
os do andar abaixo,
de seus tropeços e fracassos?
Assim é, meu irmão,
que nos vemos no erro
desta perversa competição,
onde, pelo simples fato
de tu ter o que for e eu não,
meu olhar é curvo
quando olho na tua direção.
... e, discretamente,
encobertos pelas sombras
ou acobertados pela escuridão,
aquellos que los de abajo
mantienen arriba,
riem-se, ardilosamente,
de nossa imensa confusão!

Eliseo Martinez
12.04.2022

segunda-feira, 4 de abril de 2022

385.

Para falar de desconstrução

Ao interpretar os sinais,
toma corpo, lentamente,
a desconcertante suspeita
de que terá se ido
antes mesmo de ter partido.
Dos giros que dá a vida, aturdido,
pressente a última volta da roda
na perda de si, no movimento
de adeus a si mesmo,
levado entre brumas de incerteza.
Não desejou fortuna ou louros,
trabalhou, cometeu acertos e enganos,
amou e tornou a amar de novo,
até, pequena prole plantou.
Em verdade, há muito,
se afasta do mundo dos homens,
reconhecendo, no entanto, os laços
trançados com o outro da espécie,
sempre reverente às mulheres.
Nestes tempos ocos de clemência,
as vaidades da malevolência
vestem-na com novas vestes,
envoltas no manto da demência,
ocupada, que está, em tecer véus
ante as imagens da mente
dos que querem seguir, simplesmente.
Pelos vales do entendimento,
uma a uma, vê desabarem as pontes
que ligam margens distantes.
Das pequenas ausências,
cada vez mais frequentes, fica
a perplexidade ante o cancelamento
do que já não lhe acena a frente.
Turvam-se lógica e clareza
e como já não eram muitas,
turvam-se, também, as certezas.
Das memórias, tão caras aos que
trilham caminhos acidentados,
repletos de atalhos, penhascos,
restam as paisagens desbotadas,
figuras roubadas do brilho
com que, no viço, foram gravadas.
Esvaído de sonhos e planos,
despido das próprias vontades,
pesam-lhe, em segredo,
as perdas vindouras.
Sem respostas, pergunta-se
como enfrentar o desterro de si,
o imenso custo final precedido
dos lapsos de confusão mental
a lhe desenraizar a razão,
condenado, desde já, a habitar
a casca de um homem,
numa solidão sem retorno.
Com a luz de uma vela
coada pelas frestas da percepção,
transita a própria desconstrução
tomado de mansa aflição e pavor.
Mais cruel que tristezas descritas,
é o que se passa na vida vivida,
onde o Mal de Alzheimer existe,
atualizando pragas em novos Egitos.

Eliseo Martinez
04.04.2022