Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

464.

Acordos tácitos

"Nasceram um para o outro",
é o que dizem os outros todos.
"Ela, moça boa, quase pura;
ele, quem sabe, porto seguro.
Não duvide, fará fortuna."
Tão diversos eram que
se assemelhavam estranhamente
na vontade de serem elos
de uma mesma corrente.
Ele jura que foi revolução;
ela fala em golpe, na contramão.
Ele torce pelos de vermelho;
ela, pelos de azul, é grêmio.
Mas, antes de tudo, queriam ser livres,
pensavam em um ninho, só deles,
libertos do aconchego
sufocante dos parentes.
Eram pássaros ensaiando o voo,
abrindo asas sobre o cume da montanha.
Não eram muito e já eram tudo,
eram a promessa de, juntos,
irem ao mundo.
Em algum momento,
tocados por uma cena de cinema
e alguns copos de cerveja,
dispostos a de dois meios
fazerem um inteiro,
sem olhos para o desfecho do enredo,
disseram "sim", e pronto!
Firmaram os votos do feliz encontro.
Ponto a cima, ponto a baixo,
num pesponto torto e raso,
costurados feito trapos
em pano de retalhos,
seguiram confiantes
pelo insólito anunciado.
De fato, a ideia nunca foi deles;
rebeldes, seguiram obedientes os modelos.
No início, tudo era perfeito.
Não faltava gesto de afeto,
afago, cuidado, beijo.
Arranjaram um espaço, cerquinha branca,
onde se entregaram ao próprio conto,
ocupados com mil planos.
Amealharam cama, panela, TV de plasma,
mas num breve tempo se fizeram
como tantos nascidos para semente,
a cada primavera vendo a florada
mal formada, dispersada pelo vento.
O tédio dos que muito jovens
chegaram cedo ao almejado,
pouco a pouco, roeu o arranjo feito
e fez-se o estrago.
Com os anos, houve outros entre ambos,
com seus risos seus suspiros,
logo aprendendo a curarem com novas,
velhas rotinas, segredando cada um
suas pequenas perfídias.
Via-se o que se queria.
São o que são possível,
entre abraços entrecortados
e sonhos despedaçados.
Talvez, por falta de futuro,
escassos de coragem,
até sejam para sempre.
Essas meia vidas juntas,
cheias de ilusões e pouco assunto
é a conta paga pelo que,
um a frente outro no rastro,
ainda há de ser andado.
Se algum dia se perguntarem
o que deu errado talvez concluam
que, desde o início, farta foi a fantasia,
rala foi a afinidade ou, simplesmente,
que disso sabem nada,
dando crédito aos tropeços do acaso.
E assim foi...
Esmaecidas as paixões,
já sem sobressaltos, inquietações,
negociam a solidão
a que estamos todos condenados.
Mais um par de solitários
até que a morte os separe,
mesmo que os demais olhem em volta
e vejam neles o exemplo que lhes falta.

Eliseo Martinez
04.12.2023