Todos de ti
Tu, realmente, não podes
ser chamado menos que gênio.
Zeloso das próprias antinomias
a desassossegar-te em melancolias
pelos dias mornos e as noites frias,
destes identidade a cada um
dos tantos que, desde o íntimo,
te fazem companhia.
E, assim, fez-se tu em cada um
e todos a um só tempo,
sem calar nem mesmo o mais contido
dos em ti reunidos.
Gênio, mil vezes, gênio!
E nem astrofísico fostes,
ou filósofo de renome.
Te recitam, te estudam, te desnudam,
mas poucos atentam
para o gênio de tua astúcia.
A chave de teu fascínio
foi negar-te a ter te resumido.
Dos diversos que te fazem a ti mesmo,
nega-te à escolha e não despreza
nenhum deles,
dissolvendo o pandemônio
de tantos em um só homem
ao dar voz aos múltiplos heterônimos.
Fizeste pouco das tesouras da coerência,
tornando inteira tua existência
e, ainda, concedes celebridade
a cada um em que te partes.
Se tentamos calar fantasmas
que nos habitam,
tu, aos teus, soubeste dar vida
ao reunir-te nos muitos que te afligem,
para ser todos e nenhum dos que exibes.
Mas de tantos que de ti
tu mesmo finges,
quem seria aquele
que se oculta atrás da esfinge?
Gênio, mil vezes, gênio!
E nem astrofísico fostes,
ou filósofo de renome.
O irônico é que, dentre todos,
tu és quem deveria ser chamado
Raça, Multidão, Povo,
mas aos que teus versos afeiçoam,
simplesmente, chamam-te Pessoa.
Eliseo Martinez
19.02.2024