479.
Tempo II
Bem vindo para poucos,
mal dito pelos outros todos,
o Tempo, às vezes, é saudade,
às vezes, tristeza ou, apenas,
o fluxo inegociável da natureza.
O Tempo é o tirano que tudo pode,
é um outro jeito de dizer da morte,
mas também é vida que se renova.
Ele é mais longevo que o Espaço,
que no princípio não estava
e ao fim já não é nada.
O Tempo pode negar ser
para sempre qualquer ente
que, por descuido ou breve remorso,
permitiu vir à luz da existência
antes da conhecida sorte.
O Tempo é o amante violento
seduzido pela infiel Perfeição,
que o trai a cada momento
com seu gélido coração.
Em sua ira incontida,
esse deus da tirania
corrói tudo o que um dia
foi tocado pela vida,
fazendo com que o resto todo
se inebrie antes que se dissolva
no silêncio dos esquecidos.
Há que ser gentil com o Tempo
para evitar a cota extra de sofrimento
dos que se entregam aos lamentos.
Há que se entender seu jeito
de dar ordem ao universo imperfeito,
ligando tudo com o fio invisível
de que é feito.
Há que ser grato ao Tempo
por permitir a existência
deste nosso maravilhoso contratempo,
iniciado com o fato do nascimento
e extinto com o fado do esquecimento,
ainda que em seu egoísmo
guarde apenas para si mesmo
o segredo de seu perene movimento.
Eliseo Martinez
01.07.2024