Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 23 de julho de 2024

481.

Nossas crias pelo mundo


Espaços planetários,
reduzidos pelo fluxo frenético
das redes midiáticas
a jorrarem dados por seus tentáculos,
ficam imensos, assustadores,
repletos de harpias, dragões, malfeitores,
quando nossas crias se vão ao mundo,
longe de nossos cuidados protetores.
Talvez sejam estes tempos vorazes
que nos fazem temer por seus passos
pisados sobre nossas pegadas.
Talvez seja a recusa de velho
em ser suplantado
pelo viço da mocidade.
Talvez seja apenas a vontade
de as manter sob as asas.

Eliseo Martinez
22.07.2024

segunda-feira, 8 de julho de 2024

480.

Reminiscências


Nestas noites frias, enluaradas,
que nos fazem divagar
por entre as neblinas do passado,
ainda guardo a imagem do risco
de teus olhos semicerrados
a morrer pequenas mortes
enlaçada em meus braços
para reviver num último beijo
antes de entregar-nos ao cansaço,
recompensados dos males,
apaziguados de desejos,
enfim saciados...
Das manhãs escorridas
dessas noites de afagos,
tu desfeita em sono,
eu desperto ao lado,
antevendo com temor
o tempo pouco,
no pequeno infinito
de panos amarfalhados
da alcova do nosso quarto,
pelo novo dia iluminado.
Não duvidem os que não amaram!
Os amores que nos ferem,
de fato, são eternos.
Vivem por trás do que resta
do aconchego,
apertando o que, em segredo,
se leva ao peito
com suas tenazes de ferro,
na recusa ao esquecimento
do que foram momentos perfeitos.

Eliseo Martinez
08.07.2014

segunda-feira, 1 de julho de 2024

479.

Tempo II


Bem vindo para poucos,
mal dito pelos outros todos,
o Tempo, às vezes, é saudade,
às vezes, tristeza ou, apenas,
o fluxo inegociável da natureza.
O Tempo é o tirano que tudo pode,
é um outro jeito de dizer da morte,
mas também é vida que se renova.
Ele é mais longevo que o Espaço,
que no princípio não estava
e ao fim já não é nada.
O Tempo pode negar ser
para sempre qualquer ente
que, por descuido ou breve remorso,
permitiu vir à luz da existência
antes da conhecida sorte.
O Tempo é o amante violento
seduzido pela infiel Perfeição,
que o trai a cada momento
com seu gélido coração.
Em sua ira incontida,
esse deus da tirania
corrói tudo o que um dia
foi tocado pela vida,
fazendo com que o resto todo
se inebrie antes que se dissolva
no silêncio dos esquecidos.
Há que ser gentil com o Tempo
para evitar a cota extra de sofrimento
dos que se entregam aos lamentos.
Há que se entender seu jeito
de dar ordem ao universo imperfeito,
ligando tudo com o fio invisível
de que é feito.
Há que ser grato ao Tempo
por permitir a existência
deste nosso maravilhoso contratempo,
iniciado com o fato do nascimento
e extinto com o fado do esquecimento,
ainda que em seu egoísmo
guarde apenas para si mesmo
o segredo de seu perene movimento.

Eliseo Martinez
01.07.2024