Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

482.

Alma Lavada


No tédio de um dia como tantos,
desconjurado com a tarde
a deslizar pelos porões do inferno,
indiferente ao calendário
onde o maldito dia consta ser de inverno,
matutava no que fazer depois do almoço,
segurando a taça de vinho rosso.
Na sala da casa vazia,
em meio ao austero conforto,
pensou em desafiar o que lhe fazia torto
perante os que transitam pelos entornos.
Eriçando os dissensos onde todos
antes dele combinaram seus consensos,
se pôs a jogar com as palavras
sacadas com a rolha da garrafa.
Coisa para matar o tempo,
elementos para imaginários
casos de perfídia, agitando a fila do ódio,
sempre de sobreaviso, ávida de intrigas.
Afinal, fardados ou não,
não faltam sicários de plantão,
afeiçoados a ressentimentos,
rasos de imaginação.
Invocava os que não foram,
não fizeram, nem sentiram, os que,
simplesmente, não isto e não aquilo..!
Sem mais, passou a inventariar
os cravos da discórdia, sem pretender que,
nesse ou em qualquer momento,
de tão antagônicos entendimentos,
vicejassem halos de misericórdia.
Iniciou reconhecendo que,
a frente do que devia, tendia a mover-se
pelo apelo dos desejos,
o que lhe levou a salgar campos inteiros
dos mais puros e doces sentimentos.
Traiu pela força do instinto
ao menor indício de insídia,
pronto a cobrar a dívida
antes de ser contraída.
O amor?
A princípio, pareceu indeciso, para logo
admitir de si para si que é palavra
cheia de significados indecifráveis,
uma vontade insana de algo sublime
na miserável condição que nos define.
A liberdade? Ah, a liberdade...
Seria a mais vital das utopias inalcançáveis,
apaziguando a impotência que nos é
agudamente desconfortável.
A Justiça?
Não passaria da cenoura agitada
a um palmo do focinho do asno,
prometida para um futuro sempre adiado
e, apenas, por breve descuido do destino
vindo a ser testemunhada.
Justo, mesmo, seria Zé Celso, entre sorrisos,
acenar para Sílvio dos Campos Elíseos,
condenado a arrastar o fardo do seu baú
pesado no fundo dos precipícios.
Quanto a Deus...
A despeito dos nomes que assuma,
concluiu ser a mais velha
e bem sucedida das astúcias,
contando com o medo e a ignorância
que carregamos desde a infância,
útil aos que comandam o bando todo
ou aos que carecem do mando de um dono,
fisgados por uma vaga ideia de esperança.
Confessou, ainda, que sentia haver algo
que anima as almas em pecado
sob a lona levantada neste circo planetário,
dando cor aos cenários acinzentados,
seduzindo insubmissos a pularem os cercados
e se bandearem alvoraçados por todo lado.
Pronto! Lançado às sortes,
ficou a imaginar-se no aguardo
da inconveniência dos trâmites burocráticos,
desejando arte aos críticos mais animados.
Levantou-se, abriu a porta
e saiu pelas calçadas ensolaradas
a passo desapressado,
fingindo levar nele a alma lavada.

Eliseo Martinez
21.08.2024