12.
PEQUEÑAS COSAS URUGUAYAS
- I -
As pedras das ruas de plátanos da ciudad vieja, brilham com
as águas da chuva. O abrigo sob a
marquise e uma inesperada trança de palavras com as do mendigo, educado e
sofrido, acima de tudo, rico dono de uma tranquila dignidade, pode valer
o dia e secar dos ossos e da alma a umidade.
- II -
Se de purgatório da orgia dos sabores podemos chamar o Mercado
del Puerto; o nome de um
pequeno, mas exuberante paraíso, pode ser Libreria Más Puro Verso. Quanto ao inferno que, também aqui
mantém sucursal, por certo, tem endereço não sabido e incerto.
- III -
É preciso pisar as ruas e trocar palavras sem pressa com o povo dessa
América de hispânicos diversa para sentir como, entre nós, foi mesquinha a passagem dos
lusitanos, ávidos em guardar para si a herança que deveras assam com as sardinhas a mil anos. Rico legado que só à força do afeto, desvendamos.
- IV -
Andando pelas calles,
beijando copos pelos cafés, tavernas, bares, o vinho e o Drambuie que flotam
meus pensamentos,
são processados em minhas entranhas neste exato momento, fazendo exalar o odor
único destilado no que deixo de meu na velha cidade. E, no giro do mundo, eu aqui a pensar sentado,
das coisas a finalidade.
- V -
(Eterno Retorno)
Aos 17, ainda muito jovem, cruzava à noite por ruas desertas
como bomba-relógio. O que
parecia desativado, hoje, tic-tac,
tic-tac, tic-tac ...
- VI -
O peso das evidências submete-se a força das
circunstâncias. Desde sempre os homens olham a linha curva do horizonte como se linha
reta fosse, e não suspeitaram até que lhes dissessem. A mim, disse-me a vastidão de um rio de
prata.
Sem amar, me consumi em provas de
amor. Precisei cruzar fronteiras para lá
deixar a basura de mi corazón. Ao fundo,
no assobio do vento, soam as notas de “Like a Rolling Stone”...
Eliseo Martinez
julho / 2015