40.
MANHÃSTARDESNOITES DE UM SÓ DIA
Em manhãs que escorrem pelo leito
das tardes,
sem comportas que as separem,
corpos despidos de pressa
flutuam lânguidos no tempo parado,
entregues ao espaço dos abraços,
entre olhares moles que sorriem
e mãos que ondulam, pele macia.
Alimentadas, as almas;
corpos, das fomes saciados,
alheios ao tic-tac dos ponteiros disparados.
Os sentidos são estradas incontidas,
riscadas à lâmina d'água, a vazar pelas bordas,
onde amantes se abandonam
entre lençóis, travesseiros, licores, desejos.
Olhares semicerrados,
pelo pôr-do-sol, imitados,
passeiam contornos, desfiladeiros, prados.
A paz reina na enseada.
Que os olhos míopes do mundo
vejam neste mar, quarto,
e nesta nau, leito,
pouco importa, de fato.
Hora de zarpar, que a brisalogo faz-se vento norte,
a insuflar velas rumo a oceanos alheios a portos,
onde tormentas e calmarias rodopiam
em perfeita harmonia,
engravidando noites,
que escorreram dos dias.
Eliseo Martinez
09.02.2016