Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

42.




O reencontro dos que, mesmo ligados,
se perderam, extraviados,
é um descamar lento das camadas,
por força, acumuladas,
para estancar a fonte da dor
nestes descaminhos do amor.
Mas, quando intenção e gesto
saem de braços dados,
donos do próprio afeto,
dão proporção a todo o resto.
Esse nosso passo caminhado,
tão negado de ser dado,
dedico a ti, Júlia,
que é o mais meu
dos pedaços de mim, apartados.

Eliseo Martinez
27.02.2016

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

41.


ESCREVE-SE PARA QUÊ?   ( I )


A folha em branco é como o copo vazio, em duas dimensões.
Ambos convidam. O copo, a compor sabores ou a desconstruir dores. No caso da folha, ao desenho de letras, que viram palavras, signos do pensamento, antes oculto a toda a gente e, às vezes mesmo, ao dono desse útero a que deram o nome de mente. Escrever é dar um passo feito de impasses, que passam
a ocupar o espaço como o cheiro da caça eriçando o macho. O instinto, o sexto e clandestino dos reconhecidos cinco sentidos, neste caso, bem melhor conduz a palavra do que todas as luzes da razão, ou a sensibilidade, em suas mais sutis possibilidades, pois nada mais somos que animal humano, dotado de vaidade. Tencionados corda e arco, a flecha tem como alvo aquele que movimenta a mão e, por ela, logo faz verter o que traz no coração. Para além do dizer, escreve-se para se reconhecer. Pode ser costumeiro deleite, pode ser estranheza eloquente.
Para alguns, é chamado irrecusável, que se atende à procura da identidade. A fluida questão de quem, afinal, entre tantos,
somos nesta altura da jornada. Mas, o parto parece ser melhor feito pela padroeira das parteiras, que hispânicos chamam de Dolores e lusitanos de Maria das Dores. Conhecido o crime e o motivo, impõe-se descrever o criminoso e a cena: senhor do reino interior, desembaraçado de alguém ao lado a figurar; a música incensando o ar, algo a mais para desencanar e a obstinada vontade de, nos próprios pensamentos, se achar. A banida totalidade ecoa ao fundo, entoando sentidos à improvável meta de reunir-se a partir das partes divididas. Se, ledo empenho, por que não deixar aos tolos o inútil ato? Talvez, porque não se trate das chegadas mas, antes, das caminhadas. Não há esforço perdido nesta socrática empreitada, já que aponta para o que, só em nós, está abrigado. O bem e o mal, na alma dos malditos, misturados, não é senão a força da intuição, impulso de rastrear um outro rastro, uma espécie de graal, uma centelha do que é vital. Condenados a chamar de vida esta busca, chamam o que a ela não se entrega, morte. O que sustenta a satisfação das almas simples, apaziguadas, senão o paralisante pavor ao toque frio do punhal na jugular do que julga e sente? Difícil viver de dar ôlas à pós, quando nos formou uma anterior moderna idade. Aos híbridos, equilibristas na corda esticada entre dois paradigmas, a vida não alivia o peso infringido. Acumular sensações, o fim último perseguido nestes tempos dementes, numa formidável epidemia, a todos contamina. No entanto, quer queiramos, quer não queiramos, tende a ampliar-se o espaço entre os recreios. A longa linha contínua do prazer, à linha tracejada está fadada para, logo a seguir, vir a ser não mais que sardas isoladas. Passamos a chamar a frustração pelo primeiro nome, "Não". A ironia resume-se a recusa da vida em fornecer sensações na dose em que nos tornou dependentes.
Será, mesmo, que, no outono da gente, esta avareza tem de ser uma certeza? Será, já, o prenúncio do inevitável tombo, a derradeira face, caídas todas as máscaras? Se for, o que fazer deste teimoso estoque de vigor e vontade? Tomar um chá de alface?
Dane-se! Garçom, por favor, traz guardanapo, uma caneta e, na falta de Drambuie, teu melhor licor.

Eliseo Martinez
15.02.2016

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

40.

MANHÃSTARDESNOITES DE UM SÓ DIA


Em manhãs que escorrem pelo leito
das tardes,
sem comportas que as separem,
corpos despidos de pressa
flutuam lânguidos no tempo parado,                
entregues ao espaço dos abraços,
entre olhares moles que sorriem
e mãos que ondulam, pele macia.
Alimentadas, as almas;
corpos, das fomes saciados,
alheios ao tic-tac dos ponteiros disparados.
Os sentidos são estradas incontidas,
riscadas à lâmina d'água, a vazar pelas bordas,
onde amantes se abandonam
entre lençóis, travesseiros, licores, desejos.
Olhares semicerrados,
pelo pôr-do-sol, imitados,
passeiam contornos, desfiladeiros, prados.
A paz reina na enseada.
Que os olhos míopes do mundo
vejam neste mar, quarto,
e nesta nau, leito,
pouco importa, de fato.
Hora de zarpar, que a brisa
logo faz-se vento norte,
a insuflar velas rumo a oceanos alheios a portos,
onde tormentas e calmarias rodopiam
em perfeita harmonia,
engravidando noites,
que escorreram dos dias.

Eliseo Martinez
09.02.2016