Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

41.


ESCREVE-SE PARA QUÊ?   ( I )


A folha em branco é como o copo vazio, em duas dimensões.
Ambos convidam. O copo, a compor sabores ou a desconstruir dores. No caso da folha, ao desenho de letras, que viram palavras, signos do pensamento, antes oculto a toda a gente e, às vezes mesmo, ao dono desse útero a que deram o nome de mente. Escrever é dar um passo feito de impasses, que passam
a ocupar o espaço como o cheiro da caça eriçando o macho. O instinto, o sexto e clandestino dos reconhecidos cinco sentidos, neste caso, bem melhor conduz a palavra do que todas as luzes da razão, ou a sensibilidade, em suas mais sutis possibilidades, pois nada mais somos que animal humano, dotado de vaidade. Tencionados corda e arco, a flecha tem como alvo aquele que movimenta a mão e, por ela, logo faz verter o que traz no coração. Para além do dizer, escreve-se para se reconhecer. Pode ser costumeiro deleite, pode ser estranheza eloquente.
Para alguns, é chamado irrecusável, que se atende à procura da identidade. A fluida questão de quem, afinal, entre tantos,
somos nesta altura da jornada. Mas, o parto parece ser melhor feito pela padroeira das parteiras, que hispânicos chamam de Dolores e lusitanos de Maria das Dores. Conhecido o crime e o motivo, impõe-se descrever o criminoso e a cena: senhor do reino interior, desembaraçado de alguém ao lado a figurar; a música incensando o ar, algo a mais para desencanar e a obstinada vontade de, nos próprios pensamentos, se achar. A banida totalidade ecoa ao fundo, entoando sentidos à improvável meta de reunir-se a partir das partes divididas. Se, ledo empenho, por que não deixar aos tolos o inútil ato? Talvez, porque não se trate das chegadas mas, antes, das caminhadas. Não há esforço perdido nesta socrática empreitada, já que aponta para o que, só em nós, está abrigado. O bem e o mal, na alma dos malditos, misturados, não é senão a força da intuição, impulso de rastrear um outro rastro, uma espécie de graal, uma centelha do que é vital. Condenados a chamar de vida esta busca, chamam o que a ela não se entrega, morte. O que sustenta a satisfação das almas simples, apaziguadas, senão o paralisante pavor ao toque frio do punhal na jugular do que julga e sente? Difícil viver de dar ôlas à pós, quando nos formou uma anterior moderna idade. Aos híbridos, equilibristas na corda esticada entre dois paradigmas, a vida não alivia o peso infringido. Acumular sensações, o fim último perseguido nestes tempos dementes, numa formidável epidemia, a todos contamina. No entanto, quer queiramos, quer não queiramos, tende a ampliar-se o espaço entre os recreios. A longa linha contínua do prazer, à linha tracejada está fadada para, logo a seguir, vir a ser não mais que sardas isoladas. Passamos a chamar a frustração pelo primeiro nome, "Não". A ironia resume-se a recusa da vida em fornecer sensações na dose em que nos tornou dependentes.
Será, mesmo, que, no outono da gente, esta avareza tem de ser uma certeza? Será, já, o prenúncio do inevitável tombo, a derradeira face, caídas todas as máscaras? Se for, o que fazer deste teimoso estoque de vigor e vontade? Tomar um chá de alface?
Dane-se! Garçom, por favor, traz guardanapo, uma caneta e, na falta de Drambuie, teu melhor licor.

Eliseo Martinez
15.02.2016

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