Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

85.

Ontem

Ontem, cruzei com o afeto maior
de minha juventude.
O tempo não lhe conservou o lume.
Entristeceu-me o olhar desamparado,
o risco apertado dos lábios,
o traçado incerto do passo,
como que tomado por demasiados cansaços.
Nada lembrava o viço que me encantara,
a mente alerta, a alma clara, o espírito ávido.
Pensei em descer do carro, amparar, dizer olá!
Nada fiz.
Desertei uma última vez do que já foi um nós
e deixei passar sem dizer, afundando a voz.
Nestas pequenas escaramuças, o mesmo tempo
que, cruel, obra lá, fustiga cá,
alargando o espaço que perdeu a conta
das falas, das andanças e dos abraços,
como os demais registros sequestrados.
Da trama dos sentidos vividos restou embaraço
e um caroço no oco do pescoço enrijecido.
Hoje, o afeto maior de minha juventude visitou-me,
vindo do fundo de um túnel retorcido,
como o mais verde dos talos verdes que, comigo,
concebeu as formas, estas gotas de infinito,
que não ficam, mas nos levam a vazar do círculo.
Depois dos olhos que, com vagar, se olharam,
as bocas se encontraram.
Despertei entre os acenos doces do passado
e a parede de um presente inutilmente mutilado.

Eliseo Martinez
22.09.2016

terça-feira, 6 de setembro de 2016

84.

Apontamentos  Alienistas


Nota 1:

A loucura é mais que um estado manco da consciência.
É um lugar real imaginado, um borrão escuro avermelhado,
povoado de solidão à beira da encruzilhada dos desencontrados,
cheio do movimento parado de sentidos dilacerados.


Nota 2:

Difícil pensar solidão mais só que a loucura,
ante a fenda que lhe parte chão e pontes, uma a uma.
Primeiro, o aflito da mente, depois, os sentidos do corpo e,
então, os outros ... Há! Os outros,
que não me perdoaram pelo abandono em que me encontro.
Sem guias de razão e sentidos em confusão,
depois de mim, eles também se foram.
Eu a ver tudo. Eu mesmo e todos os outros a acenarem,
já longe, antes de desaparecerem entre as brumas da noite. 


Nota 3:

Para éticos peripatéticos*, que fazem da racionalidade
essência única da humanidade,
resta-nos nada ao evaporar-se lógica e identidade.
O gênio aristotélico, aqui, saciou-se de impropérios,
cego ao radical contraveneno do unidimensional enredo.
No entanto, alheia a doidos e essencialistas metafísicos,
que são tantos, gira a esfera seu giro sem espanto.
Toda a vida é efêmera e preciosa.
No fundo de cada alma, arde a centelha do primeiro lume,
pago caro por Prometeu ao tomar dos deuses e dar aos homens.
Abraços irrompam entre loucos que, em parte,
somos todos, se não o fazem outros,
esquecidos que sem o estranho toque de loucura
não existiria paixão ou arte, tampouco encanto na literatura.
Que seria da imaginação se só se empanturrasse de razão?
Quem sabe, até mesmo, a almejada felicidade
não seja mais que o sonho insano da humanidade? 

Eliseo Martinez
06.09.2016