Apontamentos Alienistas
A loucura é mais que um estado manco da consciência.
É um lugar real imaginado, um borrão escuro avermelhado,
povoado de solidão à beira da encruzilhada dos desencontrados,
cheio do movimento parado de sentidos dilacerados.
Nota 2:
Difícil pensar solidão mais só que a loucura,
ante a fenda que lhe parte chão e pontes, uma a uma.
Primeiro, o aflito da mente, depois, os sentidos do corpo e,
então, os outros ... Há! Os outros,
que não me perdoaram pelo abandono em que me encontro.
Sem guias de razão e sentidos em confusão,
depois de mim, eles também se foram.
Eu a ver tudo. Eu mesmo e todos os outros a acenarem,
já longe, antes de desaparecerem entre as brumas da noite.
Nota 3:
Para éticos peripatéticos*, que fazem da racionalidade
essência única da humanidade,
resta-nos nada ao evaporar-se lógica e identidade.
O gênio aristotélico, aqui, saciou-se de impropérios,
cego ao radical contraveneno do unidimensional enredo.
No entanto, alheia a doidos e essencialistas metafísicos,
que são tantos, gira a esfera seu giro sem espanto.
Toda a vida é efêmera e preciosa.
No fundo de cada alma, arde a centelha do primeiro lume,
pago caro por Prometeu ao tomar dos deuses e dar aos homens.
Abraços irrompam entre loucos que, em parte,
somos todos, se não o fazem outros,
esquecidos que sem o estranho toque de loucura
não existiria paixão ou arte, tampouco encanto na literatura.
Que seria da imaginação se só se empanturrasse de razão?
Quem sabe, até mesmo, a almejada felicidade
não seja mais que o sonho insano da humanidade?
Eliseo Martinez
06.09.2016
*peripatético (do grego peri,"a vota de", e patéo,"caminhar") Designa os filósofos aristotélicos, para os quais a racionalidade é a essência do ser humano.
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