Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 26 de julho de 2018

205.



Pródiga, mesmo,
é a prole das crises...
Já me disseram
que merecia filhos melhores,
mas eles são o que podem,
exatamente como as palavras
que me vejo a escrever,
nem sempre transparentes
aos que se prestam a ler.
O certo é que
já não se encontra fácil
entre o povo da tribo
decifradores de vísceras,
entranhas e tripas,
hábeis em extrair significados
dos signos contidos nas carniças.

Eliseo Martinez
26.07.2018

quinta-feira, 19 de julho de 2018

204.

Receitinha prás travessias


Quando verdades claras
capazes de cortar a carne
como fios de navalhas
não são mais que gumes cegos
de arruinadas adagas;
quando as certezas se foram daqui,
perdidas num vazio qualquer
dentro de ti,
o que te afasta do vale da morte,
te mantém preso à vida,
te aponta o norte,
te mostra a saída?
Que candeeiro te guia
por desfiladeiros de sombras
onde só o desencanto opaco
te faz companhia?
Nestes tempos difíceis,
que o humano em nós, hiberna,
antes de tudo, resiste.
Apura os sentidos;
sai à busca de ti;
segue os vestígios.
Que te baste o eco
do toque das cordas de afeto;
que não te falte lume
para seguir no trajeto;
que as flores que cheirou,
o gosto do que te alimentou
e as auroras que encheram teus olhos
se insurjam do fundo da memória
te fazendo revisitar tua história,
sempre rara, real ou ilusória.
Só não esquece de perguntar
pelo quê teu coração bate,
o que dá sentido aos teus dias.
Qual teu sonho, tua utopia?
Fora disso, não há receita
de autoajuda travestida de poesia
que te auxilie nesta vida.

Em tempo: lembra de rir,
à princípio de ti mesmo,
ao menos uma vez ao dia,
e, no mercado, põe mel, granola
e semente de chia no cesto,
além de farta dose de fantasia
para espantar o medo que vai por dentro.

Eliseo Martinez
19.07.2018

quarta-feira, 11 de julho de 2018

203.

Bilhetinho de geladeira


Da porta da geladeira
pende um arco-íris de bilhetes,
o que não devo esquecer
em policromos lembretes.
Um deles trás teu nome,
que reescrevo quando
o tempo o consome
ou troco a brastemp
por um modelo mais novo.
Tinta que se apaga lentamente
ou arca frigorífica nova,
ele vai estar lá sempre,
preso à porta.
Por ora,
é no bilhetinho verde-água,
da cor de teus olhos claros,
que teu nome mora.

Eliseo Martinez
11.07.2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

202.

O fim do tempo


E se o tempo, depois de tanto se repetir,
envenenado de mais do mesmo, deixasse de existir,
concedendo eternidade a cada passo dado
ou imaginado na infinitude do espaço congelado?
O que até então foi, passaria a ser simplesmente
e, nesta exaustão, seria sempre, sem depois,
desnecessitado de culpa ou perdão,
alforriado de verdade ou precisão.
O futuro, em seu árduo trabalho
de colecionar imagens do passado,
repousaria para sempre num presente escaneado.
De súbito, todo movimento cessaria,
mesmo o jogo entre a noite escura e a luz do dia.
Os que temem encontrariam, por fim,
a permanente agonia;
os que desejam, a mais completa carestia;
os que perderam, suspensos na melancolia.
E, é claro, amantes surpreendidos 
no instante da pequena morte,
seriam os mais afortunados,
de longe, os de melhor sorte.
A velha morte, banida, seria reinaugurada
numa última e definitiva versão da vida.
As revoluções dos homens,
labaredas de fogo, metamorfose das nuvens
e rios, que antes corriam, no sólido agora,
aquietados, estariam gravados
na desmesurada gravura,
já não contida por nenhuma moldura.
A lágrima capturada ao rolar face abaixo,
o sorriso esboçado nos lábios,
o olhar vago seriam os novos nomes
dos que os traziam no rosto, estampados.
Criaturas de um paraíso restaurado,
no qual, falido bem e mal,
se veem desembestados, afinal.

Eliseo Martinez
09.07.2018