202.
O fim do tempo
E se o tempo, depois de tanto se repetir,
envenenado de mais do mesmo, deixasse de existir,
concedendo eternidade a cada passo dado
ou imaginado na infinitude do espaço congelado?
O que até então foi, passaria a ser simplesmente
e, nesta exaustão, seria sempre, sem depois,
desnecessitado de culpa ou perdão,
alforriado de verdade ou precisão.
O futuro, em seu árduo trabalho
de colecionar imagens do passado,
repousaria para sempre num presente escaneado.
De súbito, todo movimento cessaria,
mesmo o jogo entre a noite escura e a luz do dia.
Os que temem encontrariam, por fim,
a permanente agonia;
os que desejam, a mais completa carestia;
os que perderam, suspensos na melancolia.
E, é claro, amantes surpreendidos
no instante da pequena morte,
seriam os mais afortunados,
de longe, os de melhor sorte.
A velha morte, banida, seria reinaugurada
numa última e definitiva versão da vida.
As revoluções dos homens,
labaredas de fogo, metamorfose das nuvens
e rios, que antes corriam, no sólido agora,
aquietados, estariam gravados
na desmesurada gravura,
já não contida por nenhuma moldura.
A lágrima capturada ao rolar face abaixo,
o sorriso esboçado nos lábios,
o olhar vago seriam os novos nomes
dos que os traziam no rosto, estampados.
Criaturas de um paraíso restaurado,
no qual, falido bem e mal,
se veem desembestados, afinal.
Eliseo Martinez
09.07.2018
Nenhum comentário:
Postar um comentário