Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 23 de setembro de 2018

209.

Sobre as distâncias


Consideradas as perdas e os ganhos,
com precisão de quem compara,
de longe, pesos e tamanhos,
o braço se estende enquanto o homem,
ali sentado, frente a si mesmos,
desfaz costuras malfeitas do pensamento.
Olhos ensonados, olhar vago,
acompanha a mão que avança
em lento movimento.
No cálice, o sangue da terra é levado aos lábios,
trazido, que foi, de forasteiras paisagens.
Divaga...
E o mundo se faz presente,
espremido pela prensa dos engenhos,
pisado nos lagares pelos pés rachados
dos sem meios.
Se pretendendo objetivo...
Em torno descrito, ainda há algo a ser dito
sobre o que paira entre o ponto
em que se encontra o tal homem e o infinito.
Toda a distância de si com o que lhe vai dentro
poderia ser mensurada neste simples ato
ou sua falta.
E o grão do tempo salta.
Cogita...
Mais um passo e, quem sabe, se perca,
sem volta que se faça necessária
ou, mesmo deseje que aconteça.
Se não existem crimes perfeitos,
nada ainda foi atestado das fugas sem pistas,
o sumiço dos que se dissipam como a brisa.

Eliseo Martinez
23.09.2018

domingo, 9 de setembro de 2018

208a.


O Discurso Irreverente


"Uma palavra pronunciada no ímpeto da paixão pode parecer leve a quem diz, mas talvez se revele pesada aquele que a recebe e avalia." (Baltasar Gracián) ...
Só o silêncio não comete erros.
Mas quais, mesmo, seriam esses erros ?
As impressões que seguem, não visam desbancar as formas culturais consagradas, consideradas mais elaboradas no campo da linguagem, fazer a apologia da palavra crua ou, mesmo, do uso indiscriminado do palavrão.
Antes, procuram contextualizar seu emprego, seu devir histórico, fazendo frente ao policiamento puritano da expressão oral, muitas vezes, tolhida no genuíno entusiasmo da atividade profissional, a exemplo de um professor que ama, ou dito de outra maneira - e, também, com outra força - tem tesão pelo que faz.
A despeito desta energia vital, em minha opinião, imprescindível à atividade desses profissionais que não raro se veem castrados em sua espontaneidade pelo patrulhamento de seu trabalho. Trata-se, aqui, da defesa do uso livre da palavra, resgatada em toda a sua potência e espontaneidade, desmistificada e liberta da demonização a que, sob os mais variados interesses, é submetida. O apego exacerbado às normas constituídas, considera que os modelos de onde elas são extraídas, a exemplo do juízo de belo, ou do que é ou não "apropriado", nada mais são do que valores socialmente construídos e, portanto, não definitivos e inquestionáveis, no mais, a reboque da história.
O uso do conjunto amplo das linguagens disponíveis é desejável, e mesmo necessário, quando se tem algo vital a se dizer, no intuito de se fazer entender pelo leitor, ouvinte ou interlocutor imediato. Vital, aqui, corresponde ao quinhão de afeto subjacente a iniciativa proposta.
A importância não apenas dada ao que se fala, mas o respeito a quem escuta, ou lê o que temos a dizer. Note-se bem, nada poderia ser tachado de mais execrável ou antiprofissional sob a restritiva ótica burocrática da função do universo linguístico. Uma metodologia que contemple a multiplicidade de táticas traz, antes, benefícios do que malefícios à estratégia de chegar à ideia. 
A dimensão artística contida na literatura, dessacralizou, em muito, os entraves colocados entre a intenção de quem escreve e as possibilidades do que é entendido por quem lê, ampliando significativamente as dimensões do texto, enriquecendo-o, e contribuindo para um maior deleite desse leitor, o que, por si só, representa um forte incentivo à leitura. Inclua-se ai os recursos que visam fixar a atenção de quem está a ler.
O duplo sentido e a palavra deslocada do contexto são alguns artifícios dos quais, reconhecidamente, se valeram escritores surrealistas, para propiciar o click, o turn over, na receptividade do leitor, acrescentando-lhe inquietude necessária para fazer com que desconfie da existência de algo mais, subliminar ao texto, uma outra leitura subterrânea à linguagem literalmente apropriada. Em outras palavras, faz pensar.
A língua "culta" perde terreno dia a dia para uma linguagem mais aberta, plural, sintética e coloquial que circula no cotidiano das trocas linguística, tanto no mundo virtual da internet, como na interpessoalidade do mundo real, o que, ao contrário de afastar os interlocutores, contribui para sua aproximação, contribuindo para os objetivos da ação comunicativa.
A situação de sala de aula expressa um típico exemplo disso, onde não é difícil constatar a coexistência de múltiplas linguagens que se comunicam, quando não se ofendem mutuamente pelo simples fato de compartilharem o mesmo espaço.
É necessário tornar menos dura essa linha de fronteira, neutralizando-se as hostilidades.
A fixação da ideia como objeto que mereça a atenção e reflexão do ouvinte/leitor, pode exigir mais da forma - a exemplo do recurso à ênfase - do que a engessada expressão formal, oficial ou oficiosa, está disposta a aceitar, submetendo a compreensão ao filtro do modelo sensor, muitas vezes, de pesado cunho moralista, redutor de sentido na fala ou no texto. 
Em tempos de aceleração das mudanças que impactam todo o espectro da vida social, não podemos menosprezar as novas demandas colocadas no campo da linguagem.
Garantir o processo ético de expressão da vontade de verdade concebida na dialética de ida e volta da linguagem com o devido rigor - rigor como fidelidade à ideia e não como preceito moral -, deve ser uma preocupação constante daqueles que fazem da palavra seu ofício, no esforço de romper com a mera formalidade do dizer, efetivando a comunicação.
Uma aparente contradição que, de fato, é um paradoxo, está no legítimo vínculo que se estabelece aqui entre irreverência do discurso e rigor. A vontade ética de se fazer entender, muitas vezes esbarra no formalismo moralista, momento em que o ato da recusa moral do ouvinte/leitor choca-se com o da concepção ética e própria da singularidade do orador/escritor. Aqui, o recurso surrealista de desfazer os nexos óbvios entre forma e conteúdo, significante e significado, superfície e âmago, visam quebrar o monólito da forma de pensar própria do senso comum - marcada pela enorme gama de preconceitos - frente a determinada questão, podendo elevá-la a objeto de reflexão, além de se contrapor aos fatores que criam e recriam essas fórmulas de entendimento unidimensionais que, ao contrário do credo corrente, pouco ou nada tem de natural. "Ali onde a rotina da língua criou uma craca cristalizada, o filósofo/poeta vai catar uma trinca, uma rachadura, por onde passar a dúvida, para esgotar, mais uma vez e sempre, o que ali se recolhia."
O contexto mediatizado em que estamos todos inseridos, muitas vezes, exige do professor recursos típicos do ator na tarefa mais e mais árdua de capturar a atenção do aluno. Muitos são os obstáculos que nos alijam do ato de escutar e, portanto, pensar e exercer a crítica a partir do que é dito.
Exalte-se o que der as vertiginosas conquistas de nossos tempos, teremos de admitir que vivemos tempos avessos ao paciencioso trabalho necessário à reflexão. Um tempo que sucateou a ideia de projeto por ter pressa demasiada para aguardar as incertezas do futuro, acabando por viver e eternizar-se no tempo presente.
Para Aristóteles, somente mediante o espanto é que nos colocamos na possibilidade de sair da inércia mental e fazer o trabalho intelectual de filosofar, que não se manifesta automaticamente. A linguagem surge, aqui, como o mais poderoso dos aliados no processo de aprendizagem.
O como dizer, deve subordinar-se ao sentido do que se quer dizer. Ao longo da história, a linguagem teve de superar obstáculos, primeiramente na seara do teatro popular, da literatura e das artes plásticas. As transformações que sofre tem aberto novas frentes de batalha. O deslocamento da crítica da forma à crítica do conteúdo vem em seu auxílio, apostando no desenvolvimento da inteligência humana, na medida em que joga suas fichas de maior valor nas capacidades interpretativas de um sujeito de conhecimento ativo e não na passiva primazia da embalagem já definida pela regulação exterior a ele de um mercado da(o) ideia(sentido).
O abismo entre linguagem formal e linguagem coloquial já não pode estar submetido a preceitos meramente acadêmicos ou moralistas, mas sim à necessidade de aproximar esses campos, diminuir as diferenças entre os que "sabem" e os que "não sabem", os que fazem o uso "apropriado" da palavra e os que não o fazem. O que contribuirá decisivamente para golpear a prática de uso da palavra como perverso instrumento de poder e segregação. Empoderar a palavra como meio plural de expressão é desarma-la de sua violência.
Se no âmbito familiar, o distencionamento da palavra já é uma realidade, hoje, os campos imediatos desta contenda são as mídias e a escola.
No caso do palavrão, que é entendido antropologicamente como enriquecimento da língua, além de, por vezes, ser uma resposta sintética e eficaz a situações de tensão vivenciadas no seio dos grupos, pode, se necessário, sublinhar a fala, retendo a atenção do ouvinte/leitor. Acredita-se que a palavra shit seja a mais usada pelos norte-americanos nesta segunda década do século XXI. No Brasil, entre os adolescentes da escola pública, provavelmente a palavra "caralho" seja uma das mais empregadas.
Uma vez verificada a disseminação do uso, onde está o "feio" ou o imoral? O nu, em um campo de nudismo, despe-se do que o privou da naturalidade para, a seguir, influenciar a moda que dita as sumárias vestes que nos cobrem pelas praias e cidades. Acima de qualquer imanência, o imoral assenta na falta do hábito, um mero estranhamento. Se, por um lado, o foco no sentido/conteúdo equivale à ênfase na inteligência da interpretação e na essência, por outro, o foco na forma equivale à ênfase no superficial e no que é secundário e acidental. Apontando para a minimização dessa dicotomia, o cultivo e a tolerância da irreverência da fala, nutrida pela experiência, mais que profissional, vivencial própria e única de cada sujeito que se expressa, se constitui em fator de forte impacto inovador não só na comunicação, mas para uma convivência mais pacífica e plural em sociedade.

Eliseo Martinez
02.07.2016

208.

A luz das luas

De retorno das fronteiras do obsceno,
próximo ao estrangeiro de si mesmo,
para não perder o hábito,
abancou-se ante a mesa.
Tinha em mente se revisitar nas palavras
que se fariam à folha em branco
a sua frente.
Mas, indiferentes,
as palavras não se fizeram presentes,
aquietadas por paz tamanha
e longas noites brancas,
banhadas pelo luar das luas
alinhadas no horizonte
de um mar de panos
e risos incontidos às madrugadas.
Sem indícios de paradeiro,
silenciaram-se as mensagens
em meio ao rumoroso cotidiano
em torno.
Se foram para sempre...
até que, sem aviso,
retornem de repente.
As musas encabulam
sob a luz das duas luas
quando, despidas de inquietudes,
giram-lhe acima, livres, nuas,
na redondeza das virtudes suas.

Eliseo Martinez
09.09.2018