Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

263.


Imprudente, eu? Não creio!
Não me preocupei com os ritos
subscritos em apólices de seguros.
Desprezei cada pacto
que conteria meus passos
a fim de não passar o resto
de meus dias cumprindo os termos
de insatisfatórios contratos,
tal qual fazem os pares de mãos dadas
a olhar cada qual pro seu lado.
Vi nas letras miúdas, nas entrelinhas,
tantas patranhas, tantos garrotes,
que os riscos vividos já me valeram a pena,
seja lá com que sorte se fizeram à sena.
Decidi-me pela maior porção de liberdade
que me fosse possível cercar a cada viagem,
acreditando jogar âncoras à realidade.
De nada me arrependo!
É claro, poderia ter enveredado
por outros terrenos,
afinal sempre se pode mudar uma vírgula
ou um ponto e, por vezes, até mesmo
o texto todo, quando o desengano é tamanho.
Mas qual seria a graça de remediar
cada sentimento sentido ou ato praticado,
acomodar no futuro os erros do passado,
esterilizar o que eu acho, se tudo o que foi feito,
mesmo quando pouco pensado,
foi feito a peito aberto, tentando acertar,
evitando ferir, malgrado dar errado?
Prefiro pôr a ênfase das coisas da vida
nas lutas vencidas somadas às dádivas recebidas
e não no que deixou de suceder do jeito esperado.
Do que mais trata a existência humana
senão do drama que a todos tempera
com um tanto de comédia
e dois tantos de tragédia?
Que não me falte a memória
para lembrar do que importa,
seja de boa ou má sorte,
de antes, feito par, ou hoje, feito ímpar.
Mas, também, que não seja negada
a pequena cota de esquecimento que me cabe,
desde o homem e da mulher que deitaram
até o fim do que dali foi iniciado.

Eliseo Martinez
18.09.2019

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

262.

O mar e Hannah a passar


É! Foi dádiva inesperada, sabemos bem.
Distraídos, olhos perdidos na vastidão do mar, sentimos soprar
uma fêmina brisa passageira, que mais tarde demos o nome de Hannah Ligeira.
Em tempos gélidos, de úmidas borrascas, passou por estas
insulares costas uma brisa híbrida de silvestres cheiros, aromas
brejeiros, fazendo girar mansas as birutas cansadas, enfunando velas brancas de velhas barcaças.
Passou, não importa que num átimo.
Poderia não ter passado e nós, morrido sem testemunhar o evento instigante.
Sabemos que se foi para ser mágico vento azul mais adiante, num tempo um pouco mais distante.
Quem sabe, ventania de letras cortantes, varrendo a obra inglória de homens errantes.
Chegou riscando arco-íris, colorindo o dia pardo, de chumbo pintado.
Veio oceano a fora, alvissareira, como novelo de ar, tímida e trêmula, curiosa do povo destas ilhas esquecidas, movida pelo ímpeto de se reconhecer forte, tomando corpo, apropriando-se  do próprio porte, insinuando-se no despertar da graça, jogando dados à sorte.
Não que fosse para ficar, querer na teia da tarrafa enredar.
Não se possui o rodopio dos novos ares.
Mas, sim, com ela, tecer trança com o mais verde de dentro da gente.
E da trama ao gesto, trazer mais para perto essa nossa parte meio perdida, quase extinguida, a léguas do continente.
Nos fazer ficar menos longe de nós mesmos, muitos que cada um somos, re-unidos em volta do crepitar das fogueiras pela areia alva das praias, mareando a noite escura no rodar do giro das saias.
Na rede balançada, sob estrelas poucas, pendulou com mente lúcida e adormeceu enovelada, naturalmente despudorada, livre e nua.
Armada de lábios carnudos, pele macia, carne dura, despertando reminiscências da vida bela e louca, sob o olhar sereno dos que, ao beber da última gota, esvaziaram-se de seu desassossego inquieto e chegaram a um nada, apaziguados, recompensados, libertos.
Foi coisa de aragem condensada na forma de um recém bicho-gente, que rompe o cerco e torna a vida especialmente quente.
Grávido momento, em que a beleza mostra a cara, despojada, desembaraçada e clara, e nos vemos a agradecer, mesmo sem ter a quem o fazer.
Talvez nisto resida a religiosidade dos descrentes de nossa aldeia.
Nós, desajeitados como somos, que manuseamos flores com mãos ásperas de pescadores, tocamos o tenro ramo como arbusto pronto.
Enfim, fomos o que honestamente somos: aldeões embrutecidos pelas lides de uma vida dura, que ainda trazem em algum canto da alma retorcida o frescor do orvalho, que vimos cobrir a relva no amanhecer dos tempos de pirralhos.
Quase havíamos esquecidos de nós e deles, os talos verdes!
Assim como veio, num xisto partiu.
E partiu num motor de pano, levando consigo um barquinho à deriva e sem dono, no meio do silêncio de outra noite de pouco sono.
Parece que na quilha, a pequenina nau levava o nome DESEN (não-sei-o-que) TO.
Faz mal não, foi oferenda dos céus, escassos de deus, a homens rudes que seguem ateus.

Eliseo Martinez
maio de 2016