Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

284.

A passagem das Eríneas

Triunfais em seu retorno,
nefastas divindades helênicas
ressurgem em coléricos furores
por regiões improváveis
que, nestes tempos, lhes dão paragem.
Alecto, Tisífone e Megera,
guardiãs da ordem interna
dos lares de toda Élade,
atendiam aos antigos gregos,
ora pelo nome de Eríneas,
ora pelo de Eumênides,
conhecidas por Fúrias,
pelos romanos, que os seguiram.
Nascidas das gotas de sangue
caídas ao solo pela mutilação de Urano
sob a lâmina do metal branco
com que o titã Krono
destituiu seu pai do trono,
fazendo-se patriarca da segunda geração
para dar início a era
conflagrada dos kronidas.
Responsáveis pela harmonia
no seio das famílias,
se distanciavam do sentido
do que, hoje, entendemos por justiça.
Passaram a vigiar a discórdia doméstica,
punindo com a crueldade mais perversa
as faltas cometidas dentro dessas.
Deidades temidas por deuses e homens,
não poupavam horrores a matricidas,
patricidas, filicidas, fratricidas,
a conspirar crimes de sangue.
Encobertas pelo ocaso momentâneo
dos mitos fundadores,
como nunca, grasnam medonhas,
fazendo provar de sua cólera irascível
rischthofens, nardonis, pesseghinis,
gonçalves, boldrines...,
qual Phenix renascida das cinzas,
em terras convulsionadas pela ira,
cumprindo velhas sinas,
agora, deste lado do oceano.

Eliseo Martinez
25.02.2020

sábado, 22 de fevereiro de 2020

283.

Pela praia


Não se canse em procurar a graça
no passo desengonçado da garça.
Quem, com olhar apressado,
topar com o desencontrado bailado
de pernas que lembram caniços de vara
sob a brisa da praia e o pescoço
que banda de um lado ao outro,
acredite, espere mais um pouco.
Pelo tempo dispensado, será recompensado
com a elegância da batida de asas,
margeando água brava de mar,
espelhada de lago, ou mesmo,
de algum rio envenenado,
compondo a paisagem no sinuoso
movimento de sua branca plumagem.
Vejam só! Quem andava sem graça,
faz do próprio voo uma espécie de arte.
A garça, mais que do raso da terra,
é do alto dos ares.
É de lá que lembra aos abaixo
dos fios de beleza e harmonia
escondidos nas dobras 
do mais tempestuoso dos dias.

Eliseo Martinez
15.02.2020

sábado, 1 de fevereiro de 2020

282.

Pelo que oram os ímpios

Depois do visto, que os anos nos amoleçam
e a paz bata à porta de cada vez mais endereços,
sem que os olhos se fechem ao mundo,
as bocas emudeçam ou os ouvidos
se descuidem dos clamores ao fundo.
Que se preserve no olhar
o dom natural de se admirar;
que os lábios, mais que tagarelar,
se encontrem em lábios outros
que nos levem a sonhar
e, quando faça sentido,
saibam cantar sem motivo;
que o som e o silêncio
nunca deixem de dialogar
e a poesia sempre tenha lugar.
Que sejamos nós a decidir
sobre a velocidade do passo,
não nos finde o ímpeto por novos caminhos
e alguma sombra reste ainda,
para aliviar o cansaço ao fim do dia.
Que não nos falte a razão
para fazer frente aos surtos do desejo
e a sensibilidade nos proteja
da necessidade dos estímulos sem freio.
Que não se espere mais do tempo
do que nos pode dar o momento
e, acima de tudo,
que não nos abandone a teimosia
para recomeçar a cada dia,
quando as verdades mais sólidas
se desfizerem ante nossos olhos.
Que os que se alimentam de ira,
percebam que pouco fica,
mas que nunca se perca o norte da justiça;
os que bebem do cálice turvo das mágoas,
saciem sua sede em águas purificadas.
Que a clareza da mente fortaleça
os que se deixaram dominar
pela inveja, a soberba ou o medo;
as palavras e ideias libertem
e não nos confinem ao cativeiro
de mantras que se repetem,
nirvando o desespero.
Que cada um, do humilde ao titulado,
marque encontro consigo mesmo,
retornado da multidão onde se achava.
Que a liberdade, a fraternidade e a igualdade
se descosturem das bandeiras
e tinjam com suas cores
a realidade da raça inteira.
E, por fim, que a boa vontade,
em nós, faça morada,
varrendo qualquer vestígio dos deuses
e da caravana de entes insanos
que os acompanham, sem esquecer
das seitas e religiões que infestaram
o imaginário dos seres humanos.
Sim, os ímpios também oram,
só que sobre seus pés e não de joelhos
e, quando podem, ao lado dos companheiros.

Eliseo Martinez
01.02.2020