Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

 319.

Mais uma vez, o tempo

A obsessão com o tempo
leva com ela todos as outras,
presas ao fio que as sustentam,
estendido entre o antes e o depois,
de onde emprestam sentidos,
nem sempre bem definidos.
Do passo rápido ao passo lento,
há de chegar o momento
em que se recuse a pressa,
mas havendo sangue e pulso,
que siga a seduzir o movimento,
pois esse não cessa nunca.
Livre das rinhas
a que a vida nos leva,
mais sábio é seguir tranquilo,
quando pouco basta.
Manter a tropa na estrada,
é o que importa àqueles
que não se contentam
com pontos ou reticências.
Correr quando for preciso,
amar quando bem quisto,
odiar pouco, mesmo que
não faltem motivos,
sempre com olhar curioso
e olhos postos no mundo,
tão belo quanto belicoso.
Livres das crenças
em algum ser maior dos que
por aqui mesmo vivem,
ora alegres, ora tristes,
entre sonhos e delírios,
na utopia de qualquer dia
ainda serem felizes.
Quando possível,
que se fique sem motivo
pelos campos de Dioniso,
presos apenas ao que gira
solto no vácuo do espaço,
guardando com afeto
os beijos dados e abraços,
sem saber bem ao que,
mas sempre grato.
Certos de que a imaginação
é a varinha de condão
com que o acaso nos presenteou,
varrendo alguma fuligem
que se leve ao coração.
E, ao final,
que reste a sensação
de que o tempo
não nos passou em vão.

Eliseo Martinez
19.11.2020

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

 318.

Saudades de mim


Ah! Os portugueses!
Como esquecê-los,
mesmo que estejam
na raiz do drama brasileiro.
Pois, te digo!
Foi de um velho fado
que tomei emprestado
o verso das saudades
que, às vezes,
dá de mim mesmo.
Claro está que o fadista,
por seu lado,
também tomou
de um outro seu fraseado.
E, que diabos de sentimento é esse
que Nietzsche foi dos primeiros
a deixar registrado?
É o que emerge ao vermos
a nós mesmos diferentes
daquele esquisito
que nos olha do lado
de dentro do espelho.
Quando menos espero,
ele chega espanando
pó da memória,
transportando-me às festas
da casa da vó Rosa,
família reunida
e comidinhas gostosas;
a tão aguardada
briga com os primos
e o tio Hélio animando a torcida,
garantindo não haver lugar
para o tédio
entre tão efusivos convivas.
Retalhos de lembranças
das "coisas feias", tão singelas,
entre meninos e meninas
escondidos por trás dos prédios;
das borboletas e véus de noiva
do alegre bairro Tristeza;
das disputas de taco e bolita,
bater figurinha e sair na corrida,
sempre que rapava
o valentão da esquina.
Imagens das reuniões de garagem,
da boleia de bonde
à saída de escola,
Redenção, bamba, mariola.
Um pouco mais tarde,
veio a vez das viagens,
o sol feito despertador
à beira da estrada,
prenunciando dia de aventura
e descobertas inesperadas.
Ainda hoje,
não me entra na cabeça
porquê uma única perna
valia o dobro do galo inteiro!
A cada retorno,
a volta ao Julinho,
para logo mais,
sair pelas ruas sem rumo,
ruas que eram nossas àquela altura;
as bandas de rock
pelos bairros da cidade
e jovens de olhares desarmados,
numa Porto Alegre inquieta
e bem menos selvagem...
É! Por vezes,
tenho dessas saudades,
saudades de mim.

Eliseo Martinez
16.11.2020