319.
Mais uma vez, o tempo
leva com ela todos as outras,
presas ao fio que as sustentam,
estendido entre o antes e o depois,
de onde emprestam sentidos,
nem sempre bem definidos.
Do passo rápido ao passo lento,
há de chegar o momento
em que se recuse a pressa,
mas havendo sangue e pulso,
que siga a seduzir o movimento,
pois esse não cessa nunca.
Livre das rinhas
a que a vida nos leva,
mais sábio é seguir tranquilo,
quando pouco basta.
Manter a tropa na estrada,
é o que importa àqueles
que não se contentam
com pontos ou reticências.
Correr quando for preciso,
amar quando bem quisto,
odiar pouco, mesmo que
não faltem motivos,
sempre com olhar curioso
e olhos postos no mundo,
tão belo quanto belicoso.
Livres das crenças
em algum ser maior dos que
por aqui mesmo vivem,
ora alegres, ora tristes,
entre sonhos e delírios,
na utopia de qualquer dia
ainda serem felizes.
Quando possível,
que se fique sem motivo
pelos campos de Dioniso,
presos apenas ao que gira
solto no vácuo do espaço,
guardando com afeto
os beijos dados e abraços,
sem saber bem ao que,
mas sempre grato.
Certos de que a imaginação
é a varinha de condão
com que o acaso nos presenteou,
varrendo alguma fuligem
que se leve ao coração.
E, ao final,
que reste a sensação
de que o tempo
não nos passou em vão.
Eliseo Martinez
19.11.2020