318.
Saudades de mim
Como esquecê-los,
mesmo que estejam
na raiz do drama brasileiro.
Pois, te digo!
Foi de um velho fado
que tomei emprestado
o verso das saudades
que, às vezes,
dá de mim mesmo.
Claro está que o fadista,
por seu lado,
também tomou
de um outro seu fraseado.
E, que diabos de sentimento é esse
que Nietzsche foi dos primeiros
a deixar registrado?
É o que emerge ao vermos
a nós mesmos diferentes
daquele esquisito
que nos olha do lado
de dentro do espelho.
Quando menos espero,
ele chega espanando
pó da memória,
transportando-me às festas
da casa da vó Rosa,
família reunida
e comidinhas gostosas;
a tão aguardada
briga com os primos
e o tio Hélio animando a torcida,
garantindo não haver lugar
para o tédio
entre tão efusivos convivas.
Retalhos de lembranças
das "coisas feias", tão singelas,
entre meninos e meninas
escondidos por trás dos prédios;
das borboletas e véus de noiva
do alegre bairro Tristeza;
das disputas de taco e bolita,
bater figurinha e sair na corrida,
sempre que rapava
o valentão da esquina.
Imagens das reuniões de garagem,
da boleia de bonde
à saída de escola,
Redenção, bamba, mariola.
Um pouco mais tarde,
veio a vez das viagens,
o sol feito despertador
à beira da estrada,
prenunciando dia de aventura
e descobertas inesperadas.
Ainda hoje,
não me entra na cabeça
porquê uma única perna
valia o dobro do galo inteiro!
A cada retorno,
a volta ao Julinho,
para logo mais,
sair pelas ruas sem rumo,
ruas que eram nossas àquela altura;
as bandas de rock
pelos bairros da cidade
e jovens de olhares desarmados,
numa Porto Alegre inquieta
e bem menos selvagem...
É! Por vezes,
tenho dessas saudades,
saudades de mim.
Eliseo Martinez
16.11.2020
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