Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020


321.


Memórias Roubadas
                           

Não vi.                                            
Infelizmente, não me foi permitido.
Tampouco fui visto,
apartado que fui do horizonte
que se abre a inocência de teu olhar.
Tal foi o dano imposto
pelo ressentimento dos que nos são caros,
os mesmos que se acham credores de tudo
e devedores de nada.
É claro que os que magoaram sem pensar,
de alguma forma, erraram.
Mas, que dizer dos que,
com mesquinhez e vileza,
pesaram friamente os atos que praticaram,
cumulados de omissões a que se acostumaram?
Os que não vislumbrando vantagens,
cortaram os fios que cardam
o futuro ao passado,
com a pressa dos comerciantes
que varejam lucro imediato
pelos mercados.
Ao assorearem tuas nascentes,
te dão curso reticente
desde a fonte de onde vertestes
às margens, sempre móveis do presente.
Se o bem maior desta vida
ressoa nas reminiscências que ficam,
do tanto a ser trocado,
palavras, festinhas, risadas,
restam as memórias roubadas...
Que pensar dos primeiros passos
trôpegos de tua caminhada,
senão que mais te serviria dá-los
sob a luz de múltiplos matizes
e texturas variadas,
temperando teu caráter
no cadinho da diversidade?
Irrecuperável, por certo,
é o que escorre pelo ralo dos desafetos,
a abrir lacunas em teu
recém iniciado trajeto.
Todo o mal cientemente gestado
encontra no tempo, ágil de asas,
seu mais implacável aliado.
Mas, cuida bem,
pequena flor de mel!
Inútil te negarem a origem
sem que filtrem o sangue
que te corre nas veias
ou apagem o nome
que te acompanhará desde sempre.
A roda, que neste dezembro
de peste e perdas,
já não gira seu giro primeiro,
cumpre o segundo
alheia ao que se passa no mundo,
e gira sobre um pequeno dente trincado
para, quem sabe, mais tarde,
vir a te fazer perguntar
por que iniciaste com tão pouco cuidado?

Eliseo Martinez
17.12.2020

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

 320.

O comboio dos aflitos


Rangendo sobre trilhos
saídos do umbigo do princípio
rumo aos confins do destino,
segue por atalhos e desvios
o trem dos que ficam.
piuiii... piuiii...
Próxima estação,
Palafitas-Recife.

Jogando de um lado ao outro,
se vai ele, meio leso, todo torto,
morro acima, vale abaixo,
cruzando planícies e charcos,
contornando precipícios.
piuiii... piuiii...
Estação do Alemão

Em cada estação de passagem,
sobe gente apressada
vinda de todo lado,
uns em fuga do passado,
outros à espera pelo que rezaram,
tomando acento prá seguir viagem.
piuiii... piuiii...
Estação da Luz-Amapá

A engenhoca de paus e ferro
chacoalha carregada de desenganos
e delírios de graças redentoras
de todo mal humano.
piuiii... piuiii...
Estação Paraisópolis

Viveiro das almas,
onde as mazelas não faltam:
das mentiras sempre contadas,
dividas não pagas,
culpas e inquietações
embarcadas no vão do peito,
às saudades do que se desfez
sem nunca ter sido feito.
piuiii... piuiii...
Estação Brumadinho

Segue o comboio dos aflitos
na turbulência dos espíritos,
apinhado de passageiros
úmidos do sal dos corpos
e do que rolou dos olhos,
ali mesmo, a barganhar
sorrisos e olhares desesperados,
na ilusão de se fazerem
menos solitários,
trazendo na bagagem
o excessivo peso da liberdade.
piuiii... piuiii...
Estação Mariana

Acidente de percurso,
sem par entre animais,
a condição humana
foi tocada por dedo de divindade,
por ela mesma criada,
onde não há medo ou cansaço
que faça o magote de humilhados
arrear dos carros abarrotados,
presos um ao outro como rosário
atado por fios de esperança
e fé no trabalho.
piuiii... piuiii...
Estação Carandiru

Do alto das torres
de um paraíso imaginado,
o comboio dos aflitos
rasteja feito imensa serpente
com o bucho cheio de gente,
rumo ao muro dos desencantos
em que esbarra o incrédulo
e esbarra, também, o crente.
piuiii... piuiii...
Estação final,
Satélites-Brasília.

Eliseo Martinez
03.12.2020