321.
Memórias Roubadas
Infelizmente, não me foi permitido.
Tampouco fui visto,
apartado que fui do horizonte
que se abre a inocência de teu olhar.
Tal foi o dano imposto
pelo ressentimento dos que nos são caros,
os mesmos que se acham credores de tudo
e devedores de nada.
É claro que os que magoaram sem pensar,
de alguma forma, erraram.
Mas, que dizer dos que,
com mesquinhez e vileza,
pesaram friamente os atos que praticaram,
cumulados de omissões a que se acostumaram?
Os que não vislumbrando vantagens,
cortaram os fios que cardam
o futuro ao passado,
com a pressa dos comerciantes
que varejam lucro imediato
pelos mercados.
Ao assorearem tuas nascentes,
te dão curso reticente
desde a fonte de onde vertestes
às margens, sempre móveis do presente.
Se o bem maior desta vida
ressoa nas reminiscências que ficam,
do tanto a ser trocado,
palavras, festinhas, risadas,
restam as memórias roubadas...
Que pensar dos primeiros passos
trôpegos de tua caminhada,
senão que mais te serviria dá-los
sob a luz de múltiplos matizes
e texturas variadas,
temperando teu caráter
no cadinho da diversidade?
Irrecuperável, por certo,
é o que escorre pelo ralo dos desafetos,
a abrir lacunas em teu
recém iniciado trajeto.
Todo o mal cientemente gestado
encontra no tempo, ágil de asas,
seu mais implacável aliado.
Mas, cuida bem,
pequena flor de mel!
Inútil te negarem a origem
sem que filtrem o sangue
que te corre nas veias
ou apagem o nome
que te acompanhará desde sempre.
A roda, que neste dezembro
de peste e perdas,
já não gira seu giro primeiro,
cumpre o segundo
alheia ao que se passa no mundo,
e gira sobre um pequeno dente trincado
para, quem sabe, mais tarde,
vir a te fazer perguntar
por que iniciaste com tão pouco cuidado?
Eliseo Martinez
17.12.2020

