320.
O comboio dos aflitos
Rangendo sobre trilhos
saídos do umbigo do princípio
rumo aos confins do destino,
segue por atalhos e desvios
o trem dos que ficam.
piuiii... piuiii...
Próxima estação,
Palafitas-Recife.
Jogando de um lado ao outro,
se vai ele, meio leso, todo torto,
morro acima, vale abaixo,
cruzando planícies e charcos,
contornando precipícios.
piuiii... piuiii...
Estação do Alemão
Em cada estação de passagem,
sobe gente apressada
vinda de todo lado,
uns em fuga do passado,
outros à espera pelo que rezaram,
tomando acento prá seguir viagem.
piuiii... piuiii...
Estação da Luz-Amapá
A engenhoca de paus e ferro
chacoalha carregada de desenganos
e delírios de graças redentoras
de todo mal humano.
piuiii... piuiii...
Estação Paraisópolis
Viveiro das almas,
onde as mazelas não faltam:
das mentiras sempre contadas,
dividas não pagas,
culpas e inquietações
embarcadas no vão do peito,
às saudades do que se desfez
sem nunca ter sido feito.
piuiii... piuiii...
Estação Brumadinho
Segue o comboio dos aflitos
na turbulência dos espíritos,
apinhado de passageiros
úmidos do sal dos corpos
e do que rolou dos olhos,
ali mesmo, a barganhar
sorrisos e olhares desesperados,
na ilusão de se fazerem
menos solitários,
trazendo na bagagem
o excessivo peso da liberdade.
piuiii... piuiii...
Estação Mariana
Acidente de percurso,
sem par entre animais,
a condição humana
foi tocada por dedo de divindade,
por ela mesma criada,
onde não há medo ou cansaço
que faça o magote de humilhados
arrear dos carros abarrotados,
presos um ao outro como rosário
atado por fios de esperança
e fé no trabalho.
piuiii... piuiii...
Estação Carandiru
Do alto das torres
de um paraíso imaginado,
o comboio dos aflitos
rasteja feito imensa serpente
com o bucho cheio de gente,
rumo ao muro dos desencantos
em que esbarra o incrédulo
e esbarra, também, o crente.
piuiii... piuiii...
Estação final,
Satélites-Brasília.
Eliseo Martinez
03.12.2020
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