Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 31 de março de 2021

334.

Eli  x  Elô


Eu e tu somos substâncias
em equilíbrio,
cada qual estável
no limite de seus domínios.
Juntas, socorro!!!
Nitroglicerina...

Eliseo Martinez
31.03.2021

terça-feira, 30 de março de 2021

333.

A arte,

tanto imprescindível
quanto efêmera,
tantas vezes, cativa
dos caprichos do tempo,
que a exalta,
ignora ou enxovalha,
nasce da imaginação
e mãos humanas
para enciumar os deuses,
mais ociosos que ciosos
em sua inútil eternidade.

Eliseo Martinez
30.03.2021

segunda-feira, 29 de março de 2021

332.

Os fios

Vez por outra,
me vem a imagem dos fios.
São imagens recorrentes
e, até, escrevo sobre elas.
Hoje, o sono não veio de novo,
e, deixando a preguiça de lado,
já que nada me valeria neste caso,
resolvi perguntar-me sobre os fios
com mais cuidado.
A resposta encontrada
é a de que raros são
nossos lânguidos desembaraços,
como poucos, também são,
nossos abraços dados,
pelas distâncias que nos separam
do inimigo que insistimos ver no outro.
De fato, mais estamos pendurados
pelo que nos prende ao passado
ou, comumente, suspensos sobre espaços
desencontrados de outros passos.

Eliseo Martinez
29.03.2021
331.

NOTA  DE  AGRADECIMENTO


Humildemente,
agradeço a todos os contatos
ou tentativas de contatos
nestes vinte e oito dias
em que fui acometido pela COVID,
treze dos quais internado
no Hospital Moinhos de Vento
(ao qual só tenho a exaltar
a competência e humanidade
a mim dispensados pelo quadro funcional),
além do apoio recebido por outros tantos,
que deram alguma continuidade
a minhas rotinas aqui fora,
necessariamente abandonadas.
O apoio de parentes e amigos,
alguns que não via há muitos anos,
me ajudaram, em muito,
a superar estes momentos difíceis.
No grato reconhecimento
de que a solidariedade humana
é coisa das mais estranhas,
tantas vezes pronta a ressurgir
das cinzas de nossos desenganos,
agradeço a todos!

Eliseo Martinez
28.03.2021

domingo, 28 de março de 2021

330.

Não!
Meus versos não são brancos.
São encardidos, mesmo!
São as respostas que tenho
ao que vejo.
E por que não seriam,
se os raspo da lama
dos sapatos?

Eliseo Martinez
28.03.2021

sexta-feira, 26 de março de 2021

329.

Moinhos


As noites costumam ser piores do que os dias,
enfraquecem meus demônios,
velhos conhecidos, cheios de velhas novidades,
em meio a umidade das cobertas,
as horas que não passam e o sono difícil.
Estados de miséria do corpo
acabam por filtrar algo de essencial,
na tentativa de evitar que o resto de energia
se esvaia pelos poros dilatados
e tudo se funda numa nuvem espessa,
morna, pegajosa.
Borboletas alaranjadas
pousam em meus braços lacerados,
as agulhas, o gotejar constante do soro,
os eletrodos que rastreiam
meus batimentos cardíacos,
o cordão de oxigênio
injetando um sopro de vida
nas carnes em ruína
só fazem aumentar a imobilidade
dos pequenos movimentos pesados.
Sou um poste torto, tomado de gambiarras.
Uma corrente desvitalizada
ronda pela penumbra do quarto,
sugando energias que, lentamente,
vão se desprendendo
da matéria enfraquecida,
onde o silêncio é quebrado
pelo ruído do ar condicionado
e do misturados de oxigênio,
como se eu estivesse imerso,
noite e dia, num aquário borbulhante.
Sou uma carpa descolorida,
um bagre cor de cinza,
qualquer coisa deveras distante das fantasias
de viço que sempre estiveram comigo.
No covidário, tudo oscila
numa zona de sonhos liquefeitos
e pesadelos matizados dos delírios
que os transpassam.
O real tudo pode,
nada mais há que negociar
entre os prenúncios de seu triunfo.
Pelas madrugadas,
as incursões das enfermeiras,
com seus aparelhos de medição,
comprimidos e mais agulhas
tintas de vermelho.
Gentis, extraem as palavras
que irão noticiar os prontuários
e palavras outras, de amparo,
que respondo, por vezes, inaudível,
de olhos semicerrados.
O golpe mais forte
é desferido contra a vontade,
sugada de forças, exaurida pelo fôlego rarefeito,
dando à vida a dimensão
do peso pouco que a sustenta.
Traiçoeira, a doença, assim como avança,
recua, sem trégua.
Arma-se em escaramuça e espera.
É como se ficasse ali escondida
atrás da próxima moita ou esquina da vida
para a qualquer momento e sem aviso
atacar novamente, com cara de tonta,
malfadada senhora dos destinos.
No avanço das horas,
o quarto parece fechar-se sobre mim,
levando porções de ar que me faltam.
Por vezes, sou acompanhado por ausências
que ocupam os espaços da cela lacrada,
só entre aparelhos.
Bem poderiam ser entidades,
espectros de alguma humanidade
que dessem algum alento
de continuidade a nossas vidas
carentes de sentido.
Sim! Pensamentos estranhos para um ateu.
Mas, mesmo no limbo, acredito,
todos esperamos por algo que ainda
não se perdeu.
Mas nada são, apenas ecos
de nossa mais profunda solidão.
Não há nada a nos redimir,
nada há a rondar por aí.
Às vezes, me dou conta e elas, as vozes,
sem mais desaparecem,
levando consigo filamentos de lembranças
presos aos borrões das paredes da memória.
O pensamento vagueia entre brumas
e vagueia à procura de coisa alguma,
só o ar tem sentido, sem barca,
barqueiro cego ou moeda oferecida.
É tudo ao que somos reduzidos.
Cores, sons e cheiros,
os sentidos todos,
deslizam para a outra margem.
Sou a agonia da paz de um vegetal,
à espera do que não sei,
no vácuo deste quarto de hospital.

Eliseo Martinez
26.03.2021

328.

Tio Hélio


Há pouco, um velho que eu amava
e marcou minha existência nos deixou,
abatido pela impiedade de um vírus letal,
na solidão de um quarto de hospital.
Num mundo ávido em dissolver referências,
não é menos que uma perda gigantesca.
Meu querido Tio Hélio,
também padrinho e amigo,
não era intelectual ou artista,
não era famoso, tampouco homem
de desbravar mundos
ou, mesmo, pode ser acusado
de ter sido um revolucionário visionário.
Mas, dos homens bons que conheci,
poucos mantiveram a integridade
de tal forma preservada.
Há muito tempo era refém das dores do corpo
e outras que se instalam mais fundo,
definindo quem somos.
Homem devoto,
quase todo santo dia me enviava mensagens,
dessas que circulam no WhatsApp,
na tentativa inglória de me aproximar
dos que se alinham as fileiras de Cristo.
Bom pai, bom marido,
cúmplice de sua primeira e única namorada,
era uma dessas raras pessoas
que fazem com que a palavra família
ainda tenha sentido.
Já me deu cascudo, já ralhou comigo,
quando eu ainda era menino.
Sendo qual fosse a situação,
nunca deixou de me procurar
em meu aniversário.
Quando criança, ele me levava
prá cortar o cabelo,
frente a uma telinha de cinema no Renner,
enquanto eu, sem compreender o que dizia,
enchia de palavrões o pobre barbeiro.
Contam que era a hora que meu Tio,
ex-seminarista,
ficava vermelho de orelha a orelha.
Me lembro que lá pelo meio dos anos 60,
me deu um presente que adorei,
coisa que estava fora de nossas posses:
uma botinha de cano curto,
com fecho do lado,
que o Roberto Carlos usava,
no auge da Jovem Guarda.
Nestes tempos malditos,
somos até mesmo impedidos
à despedida dos que nos são queridos,
que se vão em seus ataúdes lacrados,
maculando  nossos ritos de passagem
mais caros.
Adeus Tio, querido!

Eliseo Martinez
02.03.2021