329.
Moinhos
As noites costumam ser piores do que os dias,
enfraquecem meus demônios,
velhos conhecidos, cheios de velhas novidades,
em meio a umidade das cobertas,
as horas que não passam e o sono difícil.
Estados de miséria do corpo
acabam por filtrar algo de essencial,
na tentativa de evitar que o resto de energia
se esvaia pelos poros dilatados
e tudo se funda numa nuvem espessa,
morna, pegajosa.
Borboletas alaranjadas
pousam em meus braços lacerados,
as agulhas, o gotejar constante do soro,
os eletrodos que rastreiam
meus batimentos cardíacos,
o cordão de oxigênio
injetando um sopro de vida
nas carnes em ruína
só fazem aumentar a imobilidade
dos pequenos movimentos pesados.
Sou um poste torto, tomado de gambiarras.
Uma corrente desvitalizada
ronda pela penumbra do quarto,
sugando energias que, lentamente,
vão se desprendendo
da matéria enfraquecida,
onde o silêncio é quebrado
pelo ruído do ar condicionado
e do misturados de oxigênio,
como se eu estivesse imerso,
noite e dia, num aquário borbulhante.
Sou uma carpa descolorida,
um bagre cor de cinza,
qualquer coisa deveras distante das fantasias
de viço que sempre estiveram comigo.
No covidário, tudo oscila
numa zona de sonhos liquefeitos
e pesadelos matizados dos delírios
que os transpassam.
O real tudo pode,
nada mais há que negociar
entre os prenúncios de seu triunfo.
Pelas madrugadas,
as incursões das enfermeiras,
com seus aparelhos de medição,
comprimidos e mais agulhas
tintas de vermelho.
Gentis, extraem as palavras
que irão noticiar os prontuários
e palavras outras, de amparo,
que respondo, por vezes, inaudível,
de olhos semicerrados.
O golpe mais forte
é desferido contra a vontade,
sugada de forças, exaurida pelo fôlego rarefeito,
dando à vida a dimensão
do peso pouco que a sustenta.
Traiçoeira, a doença, assim como avança,
recua, sem trégua.
Arma-se em escaramuça e espera.
É como se ficasse ali escondida
atrás da próxima moita ou esquina da vida
para a qualquer momento e sem aviso
atacar novamente, com cara de tonta,
malfadada senhora dos destinos.
No avanço das horas,
o quarto parece fechar-se sobre mim,
levando porções de ar que me faltam.
Por vezes, sou acompanhado por ausências
que ocupam os espaços da cela lacrada,
só entre aparelhos.
Bem poderiam ser entidades,
espectros de alguma humanidade
que dessem algum alento
de continuidade a nossas vidas
carentes de sentido.
Sim! Pensamentos estranhos para um ateu.
Mas, mesmo no limbo, acredito,
todos esperamos por algo que ainda
não se perdeu.
Mas nada são, apenas ecos
de nossa mais profunda solidão.
Não há nada a nos redimir,
nada há a rondar por aí.
Às vezes, me dou conta e elas, as vozes,
sem mais desaparecem,
levando consigo filamentos de lembranças
presos aos borrões das paredes da memória.
O pensamento vagueia entre brumas
e vagueia à procura de coisa alguma,
só o ar tem sentido, sem barca,
barqueiro cego ou moeda oferecida.
É tudo ao que somos reduzidos.
Cores, sons e cheiros,
os sentidos todos,
deslizam para a outra margem.
Sou a agonia da paz de um vegetal,
à espera do que não sei,
no vácuo deste quarto de hospital.
Eliseo Martinez
26.03.2021