328.
Tio Hélio
Há pouco, um velho que eu amava
e marcou minha existência nos deixou,
abatido pela impiedade de um vírus letal,
na solidão de um quarto de hospital.
Num mundo ávido em dissolver referências,
não é menos que uma perda gigantesca.
Meu querido Tio Hélio,
também padrinho e amigo,
não era intelectual ou artista,
não era famoso, tampouco homem
de desbravar mundos
ou, mesmo, pode ser acusado
de ter sido um revolucionário visionário.
Mas, dos homens bons que conheci,
poucos mantiveram a integridade
de tal forma preservada.
Há muito tempo era refém das dores do corpo
e outras que se instalam mais fundo,
definindo quem somos.
Homem devoto,
quase todo santo dia me enviava mensagens,
dessas que circulam no WhatsApp,
na tentativa inglória de me aproximar
dos que se alinham as fileiras de Cristo.
Bom pai, bom marido,
cúmplice de sua primeira e única namorada,
era uma dessas raras pessoas
que fazem com que a palavra família
ainda tenha sentido.
Já me deu cascudo, já ralhou comigo,
quando eu ainda era menino.
Sendo qual fosse a situação,
nunca deixou de me procurar
em meu aniversário.
Quando criança, ele me levava
prá cortar o cabelo,
frente a uma telinha de cinema no Renner,
enquanto eu, sem compreender o que dizia,
enchia de palavrões o pobre barbeiro.
Contam que era a hora que meu Tio,
ex-seminarista,
ficava vermelho de orelha a orelha.
Me lembro que lá pelo meio dos anos 60,
me deu um presente que adorei,
coisa que estava fora de nossas posses:
uma botinha de cano curto,
com fecho do lado,
que o Roberto Carlos usava,
no auge da Jovem Guarda.
Nestes tempos malditos,
somos até mesmo impedidos
à despedida dos que nos são queridos,
que se vão em seus ataúdes lacrados,
maculando nossos ritos de passagem
mais caros.
Adeus Tio, querido!
Eliseo Martinez
02.03.2021
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