Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

352.

Barcelona


Entre os pilares de Córdoba
e os ares de Valência,
vem-me pelas dobras da memória,
Barcelona, alegre e densa,
com seus encantos e armadilhas,
suas noites fervilhantes
e o lume de seus dias.  
Velhas raízes ibéricas
fundiram-se à força
de braços e ideias.
Romanos, judeus,
cristãos e mouros,
murmuram por trás da arte
de Gaudi, Miró, Dali
e nas canções de Serrat,
que não canso de escutar.
Nascida Barcino,
na história de seus filhos,
fez-se derradeira resistência
à falange e seus pesadelos,
espalhados pela Espanha.
Hoje, pelas ramblas
e sacadas embandeiradas,
é feita de duas vontades,
a de reafirmar sua unidade
ou seguir fazendo parte,
mas sempre orgulhosa
da própria identidade.
Com toda a cólera destes dias,
soube compor o verso castelhano
com o verbo catalão,
bem mais antigo,
ouvido pelo bairro gótico,
no Montjuic, na Boqueria,
junto ao gato da Raval,
nas areias de Barceloneta,
à beira do mar interno,
onde navegaram suas naus
e encantam suas mujeres.
Barcelona, Cidade aberta,
é dos que nela viveram sempre
mas, multicultural, também
se fez pátria de toda a gente.

Eliseo Martinez
16.09.2021

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

351.

A mulher e o cão na guia


Na rua deserta, uma mulher passa
segurando o cão pela guia.
O cão para, a guia estica,
a mulher estanca o passo e espera,
enquanto, alheia ao fato,
é observada por trás
dos vidros da sacada,
do outro lado da calçada.
O cão faz o que fazem os cães
quando são levados para passear,
com ou sem guias.
Demarcam territórios,
enquanto se aliviam.
A mulher volta a andar, agora,
conduzida pelo cão, que a guia.
Cão e mulher desaparecem
por trás da esquina.
Se fosse filme, provavelmente,
a cena teria um sentido.
Mas não é filme, é vida!
A razão é a mais pretenciosa
das pretensões humanas.
Vive do ofício de montar
e desmontar quebra-cabeças,
saindo pelo mundo
a procura do lugar
do concreto-contido
no abstrato-continente,
que apenas existe pelo acordo
transitório das mentes.
O significado do ocorrido é nenhum,
mas haverá quem diga
que, à falta de outro motivo,
cão e mulher estavam lá
para compor a cena,
observada por trás
dos vidros da sacada,
do outro lado da calçada.

Eliseo Martinez
02.09.2021

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

350.

Dá memórias à pequena!


Sai um pouco da cidade,
pega a estrada e te evade.
Vem andar descalça na beira da praia.
Vem e trás junto a pequena.
Imagina os olhinhos dela
na primeira vez que ver o mar,
se espantando com o horizonte
sem parede, rua ou prédio,
que já lhe ensinaram o perto, é certo,
e começar a entender onde fica o longe,
para que algum dia chegue lá.
E, assim, regar nela o grão do filosofar.
O que irá pensar do mistério das marés
e do jogo interminável das ondas,
que não param de quebrar?
Elas lhe ensinarão a persistência,
fazendo com que o que deseje aconteça.
Imagina só!
A menina correndo pela areia,
sem motivo de cuidado
ou mão que a contenha,
a tomar gosto pela liberdade
e seguir a vida inteira ao seu encalço.
Imagina quando ver as garças
de meinhas pretas, bicos perfilados
e penachos empertigados,
todas à linha d´água,
viradas para o mesmo lado
e ela, mão nos olhos, escondidinha,
vindo de mansinho,
revoando a passarada,
com o riso dos inocentes,
neste mágico momento.
As garças ensinarão a ela
a paciência e o comedimento,
para que saiba aplacar
os caprichos do tempo.
E quando se deparar
com o biguá desengonçado,
que mais parece pato mal desenhado,
mas pescador difícil de ser igualado.
Caberá ao biguá lhe provar
que as aparências são acidentes,
nada dizem da essência da gente.
Nossa!
E quando ver o siri andando de lado,
todo atrapalhado?
Será que a mamãe dele
esqueceu de explicar
como se anda olhando
prá onde se quer chegar?
Do siri ela aprenderá
que não tem só um, mas muitos
jeitos de se caminhar.
Descobrirá que todos podem ser o certo,
e diferenças tem de se respeitar.
O que dirá da tatuíra
que, brincando de esconder,
cava a areia úmida
da manhã ao entardecer?
A tatuíra lhe ensinará como se proteger
e que o trabalho é a chave prá sobreviver.
Já pensou nos golfinhos,
entrando pela barra, rio acima,
atrás dos cardumes de sardinhas?
Do golfinho aprenderá
que a graça e a beleza
podem estar em todo o lugar.
Aos poucos irá percebendo
que basta se estar atento
e tudo tem algo a nos ensinar.
Depois daqui, o mundo vai ser outro,
bem maior do que qualquer tela de TV.
Maior, ainda, do que o parquinho
ou do quarto dos brinquedos,
onde estaciona seus carrinhos
e põe para dormir os ursinhos.
Se a felicidade tem cara, ela estará lá,
no rosto de uma flor de mel,
que gente grande teima
em chamar de Izabel.
Levará com ela lembranças vida à fora,
fazendo mais leve sua história.
Dá memórias a tua filha, filha minha,
pois tu também as teve
em teus tempos de pequenina.
Memórias das coisas boas
são sementes de afeto,
quem sabe as guarde e cresçam nela,
prá ser mais feliz, sem tanto medo,
sabendo que o amor
é coisa a se manter perto.

Eliseo Martinez
24.08.2021

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

349.

Aviso aos Correios

Se o conhecido destinatário,
coletor de sonhos e amante do imaginário,
for alvo de missiva de marido preterido,
aviso de credor falido
ou bilhete de amor partido,
mais fácil encontrá-lo
pelas quebradas do velho bairro,
nos altos de algum sobrado
de número apagado
e janelas escancaradas
para o céu estrelado.
De preferência em noites de lua cheia
e nuvens algodoadas.
Provavelmente, o logradouro
mantenha o piso abaixo desocupado,
de tanta flor de urtiga mal nascida
no rastro dos passos apressados
do inveterado mal humorado,
useiro em subir aos pares
os degraus da escada.
E, com toda a certeza,
não se canse, senhor carteiro,
em perguntar por seu paradeiro
aos que, na vizinhança,
traçam planos mais ligeiros,
desimportados do que se passa
quando passam as noites desacordados.
Nada mais justo
que se deixe ao endereçado,
indiferente ao mundo,
mas atento as mensagens
vindas do próprio fundo,
o delicado trabalho
de recompor os sonhos que sonha,
na colagem das memórias que disponha,
no enfado da alegria
ou no criadouro da fingida dor sentida,
como já foi bem dito pelo outro,
a treze de junho também nascido.
Mas, avise aos demais agentes dos Correios,
não batam à porta mais de duas vezes,
mesmo que percebam movimento
do lado de dentro.
Se o sonhador, assim quiser,
deixe que siga a colecionar retalhos
do que viveu à sombra das asas de Morfeu,
antes que saia porta à fora
e se ponha a andar de esguelho e contrafeito,
meio de mal jeito, a ranger os dentes,
entre os sempre inconvenientes
muros do presente.
Talvez seja mais sábio procurar
o que a vigília nos oculta
no espaço onírico, à penumbra.
Talvez haja mais beleza e poesia
nos sonhos que sonhamos
e nas fantasias que acalentamos
do que em toda a realidade
com que nos deparamos.
Talvez seja nos sonhos que reste preservado
tudo o que nos faz feliz e sossegado,
livres do desengano dos paraísos fabricados.
Talvez seja só lá que exista
o que faça sentido
e onde a vida não nos cobre
com juros a contrapartida.
Ou, em um último talvez, talvez os sonhos
nos coloquem frente aos arquétipos
que habitam o inconsciente da espécie
e permitam a nossos instintos reprimidos
que se manifestem.
Se mesmo para o mais comum dos homens,
a razão está longe de dar conta de tudo,
quem somos nós para julgar o grão de loucura
preso a cada coisa que se procura?
Por certo, se for o caso,
estará ele a recriar soníferas vivências
ou a antecipar as que virão na sequência,
esperando, a qualquer hora,
dar de cara consigo mesmo,
como nunca antes já foi feito.

Eliseo Martinez
10.08.2021