349.
Aviso aos Correios
Se o conhecido destinatário,
coletor de sonhos e amante do imaginário,
for alvo de missiva de marido preterido,
aviso de credor falido
ou bilhete de amor partido,
mais fácil encontrá-lo
pelas quebradas do velho bairro,
nos altos de algum sobrado
de número apagado
e janelas escancaradas
para o céu estrelado.
De preferência em noites de lua cheia
e nuvens algodoadas.
Provavelmente, o logradouro
mantenha o piso abaixo desocupado,
de tanta flor de urtiga mal nascida
no rastro dos passos apressados
do inveterado mal humorado,
useiro em subir aos pares
os degraus da escada.
E, com toda a certeza,
não se canse, senhor carteiro,
em perguntar por seu paradeiro
aos que, na vizinhança,
traçam planos mais ligeiros,
desimportados do que se passa
quando passam as noites desacordados.
Nada mais justo
que se deixe ao endereçado,
indiferente ao mundo,
mas atento as mensagens
vindas do próprio fundo,
o delicado trabalho
de recompor os sonhos que sonha,
na colagem das memórias que disponha,
no enfado da alegria
ou no criadouro da fingida dor sentida,
como já foi bem dito pelo outro,
a treze de junho também nascido.
Mas, avise aos demais agentes dos Correios,
não batam à porta mais de duas vezes,
mesmo que percebam movimento
do lado de dentro.
Se o sonhador, assim quiser,
deixe que siga a colecionar retalhos
do que viveu à sombra das asas de Morfeu,
antes que saia porta à fora
e se ponha a andar de esguelho e contrafeito,
meio de mal jeito, a ranger os dentes,
entre os sempre inconvenientes
muros do presente.
Talvez seja mais sábio procurar
o que a vigília nos oculta
no espaço onírico, à penumbra.
Talvez haja mais beleza e poesia
nos sonhos que sonhamos
e nas fantasias que acalentamos
do que em toda a realidade
com que nos deparamos.
Talvez seja nos sonhos que reste preservado
tudo o que nos faz feliz e sossegado,
livres do desengano dos paraísos fabricados.
Talvez seja só lá que exista
o que faça sentido
e onde a vida não nos cobre
com juros a contrapartida.
Ou, em um último talvez, talvez os sonhos
nos coloquem frente aos arquétipos
que habitam o inconsciente da espécie
e permitam a nossos instintos reprimidos
que se manifestem.
Se mesmo para o mais comum dos homens,
a razão está longe de dar conta de tudo,
quem somos nós para julgar o grão de loucura
preso a cada coisa que se procura?
Por certo, se for o caso,
estará ele a recriar soníferas vivências
ou a antecipar as que virão na sequência,
esperando, a qualquer hora,
dar de cara consigo mesmo,
como nunca antes já foi feito.
Eliseo Martinez
10.08.2021
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