Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

416.

Uma lagoa chamada Violão

À beira das águas mansas da Lagoa,
biguás, garças e quelônios
de pescoços esticados
dividem o sossego do espaço
e as bagas das amoreiras
com a ruidosa alegria
de crianças alvissareiras.
Ao alto da colina,
paira a torre da velha igreja
onde, no passado,
ajoelharam fidalgos desgarrados
das cortes portuguesas
e, hoje, dominam torres de edifícios
com suas sacadas de vidro.
A ponte que liga o Centro à Cal
se estende de um lado ao outro
do olho d'água,
surgido das lágrimas derramadas
pela jovem índia apaixonada,
para casais de namorados
jogarem mulicas de pão aos bagres,
segredando coisas do coração
ao fim das tardes,
sobre a Lagoa do Violão.
Gente de toda idade
ocupa os bancos sombreados
pelas copas das árvores
ao longo do perímetro das águas.
Uns compartilhando o calor
da cuia passada de mão em mão,
outros de mãos dadas
e outros mais a olhar o nada,
revivendo na memória
os rumos da própria caminhada.
O tempo corre parado
no pequeno vale entre bairros,
ao abrigo do frenético vai e vem
dos turistas que, nos verões,
invadem a pacata cidade
para, nos meses de frio,
deixarem os arranha-céus
que lhes servem de morada,
abandonados aos fantasmas
apegados a estas plagas
de paisagens tão variadas.
Por estes lados do Rio Grande,
o passo lento não se faz encabulado
ao ditar o ritmo dos habitantes,
imunes a overdoses de adrenalina
que costumam envenenar a vida.

Eliseo Martinez
26.09.2022

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

415.

Pulsa

Senti que deveria escrever
algo especialmente para ti.
Entre as pequenas rotinas diárias
e os amplos movimentos
que animam as almas humanas,
existem as fendas que,
em suas nuances diversas,
dão sentido complexo
e único à cada existência.
Sou homem de poucos amigos.
Antes dos sinais de poder,
dos corpos sinuosos
ou das performances,
me atraem a sagacidade
que transparece no olhar,
o fogo que arde gelado
nas veias dos desesperados,
o mistério dos desencaixados,
o destino dos naufragados...
O fluxo furioso e contido
dos que vivem nestes tempos difíceis,
esterilizados, justo eles, dominados
pelas hordas domesticadas.
Me importa o fio
das meadas ocultas,
que animam vontades furtivas
e revelam histórias fecundas,
antes que ressequem de vez
sob as crostas da estudada conduta
dos que vivem a engolir a si mesmos,
na recusa em aceitar o abismo
que preenche o oco de peito ferido.
Atrai-me o que escapa
ao pastiche dos "bons" e da ilusão
dos rasos círculos de amigos.
Muito me atraem os infernos
que subjazem às paixões,
já nascidas sob o signo da danação.
Me seduzem os corações selvagens
e o pulso das vísceras dos condenados,
alambiques a verter gota à gota
a inexplicável coragem.
Cativa-me o fascínio
que o próprio fascinante
recusa em si mesmo,
preso pelos arames do medo.
Haverá algo mais urgente
do que o largo respiro
dos que encenam alegrias de dia
e, no silêncio das noites,
sufocam o próprio gemido?
Agora, se tiver de falar
do que me causa espanto,
falo da estranheza dos náufragos,
renegando o que os tornam
tão próximos;
falo do ralo dos desencontros,
e com o que, aos fins de tarde,
calmamente, nos assassinamos,
esmagados pelo cimento e aço
destas alegres tristes cidades.
E, ainda assim, acima de tudo,
me encantam os que pulsam...

Eliseo Martinez
07.09.2022