Uma lagoa chamada Violão
À beira das águas mansas da Lagoa,
biguás, garças e quelônios
de pescoços esticados
dividem o sossego do espaço
e as bagas das amoreiras
com a ruidosa alegria
de crianças alvissareiras.
Ao alto da colina,
paira a torre da velha igreja
onde, no passado,
ajoelharam fidalgos desgarrados
das cortes portuguesas
e, hoje, dominam torres de edifícios
com suas sacadas de vidro.
A ponte que liga o Centro à Cal
se estende de um lado ao outro
do olho d'água,
surgido das lágrimas derramadas
pela jovem índia apaixonada,
para casais de namorados
jogarem mulicas de pão aos bagres,
segredando coisas do coração
ao fim das tardes,
sobre a Lagoa do Violão.
Gente de toda idade
ocupa os bancos sombreados
pelas copas das árvores
ao longo do perímetro das águas.
Uns compartilhando o calor
da cuia passada de mão em mão,
outros de mãos dadas
e outros mais a olhar o nada,
revivendo na memória
os rumos da própria caminhada.
O tempo corre parado
no pequeno vale entre bairros,
ao abrigo do frenético vai e vem
dos turistas que, nos verões,
invadem a pacata cidade
para, nos meses de frio,
deixarem os arranha-céus
que lhes servem de morada,
abandonados aos fantasmas
apegados a estas plagas
de paisagens tão variadas.
Por estes lados do Rio Grande,
o passo lento não se faz encabulado
ao ditar o ritmo dos habitantes,
imunes a overdoses de adrenalina
que costumam envenenar a vida.
Eliseo Martinez
26.09.2022