O absurdo de Camus
O irremediável cisma
entre o espírito que enseja
e o mundo que dissimula;
entre a essência racional
e o irracional da existência,
define os caminhos distintos
que nos levam as verdades,
que são umas para um
e outras para o outro;
cambiando incessantemente
no doido fluxo do tempo,
tanto para o primeiro,
quanto para cada um
de todos os outros.
E, assim, o caroço adulterado
da VERDADE, sempre almejada,
é plantado no sulco de cada alma,
regado pela impossível vontade,
fazendo germinar a flor nostálgica
da unidade, ela mesma,
jamais desabrochada.
Constatar a existência de verdades
sem jamais ser capaz
de tocar o graal da VERDADE,
denuncia no homem
sua condição absurda,
deitando por terra
as esperanças de reconhecer-se
no íntimo de si mesmo.
Condenado ao absurdo,
perplexo, sempre que se aventure
a ir mais fundo, ele logo se vê
fadado a perguntar-se:
quem é esse estranho que me fita
do outro lado do espelho?
Sem o ter inventado,
Camus o capturou pelo nome,
desvendando o medonho rosto
do que apenas era conhecido
por imprecisos pseudônimos.
Eliseo Martinez
25.10.2022
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