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(Mensagem aos de casa)
Nestes tempos encarniçados, que recado se poderia deixar aos
de casa, quando as escolhas seriam óbvias se nos concentrássemos nos fatos?
Mas os fatos nunca precisaram ser mais interpretados do que
hoje, nestes tempos de pós-verdade.
Eu, filho, irmão, pai, avô, tio e cunhado, dos que fazem parte
deste pequeno grupo de pessoas, fugindo do habitual "recorta e
cola", resolvi compartilhar algumas ideias com vocês, meus
queridos parentes.
Espero que não me queiram mal com o que tenho a dizer,
tampouco que, pela leitura não estar exatamente na ordem do
dia, o que vai aqui escrito seja de antemão posto de lado por ter
me alongado.
De fato, acho bem necessário que algumas palavras sejam ditas
neste momento em que os acontecimentos no país apontam para
graves mudanças, que visivelmente já estão afetando nossas vidas, inclusive a nível das relações interpessoais.
Em primeiro lugar, queria falar do TERRITÓRIO, que nada mais é do que o espaço de trocas de um grupo, de um coletivo.
Nós, familiares, formamos um desses coletivos.
Um coletivo de natureza diferente do que o grupo da empresa em que trabalhamos, do condomínio do edifício em que moramos
ou, mesmo, dos membros das comunidades de interesses diversos que, por ventura, nos afiliamos.
Somos um coletivo de sangue, um COLETIVO DE AFETO.
Pois bem!
Transformações históricas estão continuamente se processando no interior da sociedade e a formação social a que chamamos
"família", não escapou delas.
Se partirmos do tempo de minha neta, quem nos fornecia o território do encontro era minha avó, há cinco gerações atrás.
Aquele era um TERRITÓRIO FÍSICO, a casa da vó, onde o conjunto amplo da grande família reunia-se não uma, mas várias
vezes ao ano, por ocasião de aniversários, Páscoa, muitos fins de
semana e, obrigatoriamente, do Natal.
Era lá que fazíamos nossas trocas, sabia-se uns dos outros, resolviam-se problemas, nos divertíamos, confraternizávamos e, por vezes, também era o palco em que se desenrolavam nossos pequenos conflitos, que nunca deixaram de ser rapidamente
superados, como bons descendentes de italianos que somos.
Ou seja, um ambiente saudável, interativo, fraterno e, especialmente, vivo.
O território físico das trocas familiares praticamente deixou de existir para a grande família, restando os espaços pulverizados
das nossas famílias nucleares, às vezes, nem isso.
Hoje, esse espaço ainda resiste, com menor constância quando nos reunimos no dia das mães ou para homenagear nossa
matriarca em mais um ano de vida.
Se o território físico praticamente deixou de existir como espaço das trocas afetivas, ele passou a existir como TERRITÓRIO
VIRTUAL, em grupos como este, no ambiente midiático, o insólito metaverso.
É o que temos para o momento!
De fato, este é o espaço possível das trocas cotidianas nestes tempos acelerados.
Se é bom ou ruim? Não vem ao caso!
Assumi a tarefa e a responsabilidade de tomar o tempo de todos aqui para ressaltar exatamente isto: que este espaço é o que
temos para exercer nossas trocas de afeto.
Não é o lugar para se fazer a cabeça de ninguém, impor ideias, seja de que tipo forem.
Mas é, sim, o espaço em que pessoas que se gostam e respeitam, podem e DEVEM se manifestar.
Manifestar-se sobre arte, culinária, causos, abobrinhas, ... e, por quê não, política, já que é algo que afeta a todos?
Afinal, somos suficientemente inteligentes para isso e igualmente bem formados para tanto.
Assim como manifestar-se sobre qualquer ideia que seja importante para cada um.
Ideias que permitam melhor nos conhecer, para saber quem somos, não apenas individualmente, mas enquanto grupo
familiar, construindo e reconhecendo nossa identidade.
Há risco nisso? Claro, meus queridos!
Sempre que alguém se expõe tem risco. A ilusão da harmonia perfeita encontra-se apodrecendo nos "campos santos" dos
cemitérios.
Além do mais, não é fácil superar o sentimento que melhor caracteriza nosso tempo: o medo.
Mas quem entre nós pode defender que este espaço tenha de ser necessariamente raso e burocrático; um espaço insípido, inodoro
e incolor, um espaço de estranhamento formal?
Mantendo regras básicas de convivência, respeito e, principalmente, de afeto poderemos criar entre nós um ambiente
que melhor nos represente e mutuamente nos enriqueça.
E, a chave para isso, nestes tempos obscuros, é apenas uma: que cada manifestação considerada "polêmica" tenha a primazia do ARGUMENTO, obedecendo a cadeia de razões que legitimam,
não uma verdade, mas uma ideia, uma opinião sincera e despojada, mesmo que apaixonada.
É justamente o caráter de unidade familiar a nos ligar que faz com que a porta de nossas casas esteja sempre aberta a cada
um dos demais ou que sempre que necessário nos ajudemos
mutuamente, por mais distantes fisicamente que nos encontremos uns dos outros.
Somos muitas cabeças, muitas vivências, muito potencial circulando pelas quatro gerações que transitam por este território.
Todos já nos alegramos com as conquistas acadêmicas, profissionais ou afetivas de alguns; lugares distantes conhecidos por outros; dons e habilidades demonstrados em suas trajetórias de vida; oportunidades que se abriram a cada um...
Por outro lado, alguns se expressam artisticamente e sua arte nunca aparece aqui; tem quem se afeiçoe a escrita e seus
escritos não estão aqui; tem os que realizam atividades religiosas e elas não ecoam aqui; tem os que têm projetos e eles não
passam por aqui; têm os quase todos que se deparam com pequenos ou grandes obstáculos e eles nem sempre são
compartilhados com os demais no espaço que temos...
Ou seja, preservadas as diferenças de cada um, o que está em questão aqui é uma concepção de família, que nada tem a ver
com o estereótipo da "família feliz", em meio a um mundo que se contorce.
Este não tem de ser um espaço onde todos concordem, mas o espaço onde as pessoas se respeitem e, acima de tudo, se
reconheçam sem medo.
Não deveria ser o espaço em que estranhos, vagamente conhecidos, compartilham um nome, que não se sabe bem de onde veio.
Não podemos temer nossas diferenças, diferenças que estão aí. Elas existem!
Uns de nós são gremistas, outros colorados e já existiram os cruzeiristas, como meu pai; uns de nós são religiosos, outros ateus; uns são de direita, outros de esquerda e quem sabe que outras diferenças nos unam?
O que não podemos nos transformar é em um coletivo pobre, minado por rancores silenciosos, justamente porque não se
expressam, coparticipes de um espaço formal e estéril como os que surgem numa empresa ou condomínio, onde cada um tem
de andar pisando em ovos, com o cu voltado para a parede!
Portanto, tomo a liberdade de propor que se um de nós, QUALQUER UM, que tiver algo que ache realmente importante a ser exposto de modo a contribuir na educação ou na formação da opinião dos demais, sinta-se livre para o fazer.
Dê sua sincera contribuição, livre e afetuosamente.
Beijos e abraços a todos!
Eliseo Martinez
30.10.2022 (dia das eleições presidenciais no país)