Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 22 de novembro de 2022

425.

A invenção da escrita

Vigora, por ai, a crença
de que se escreve sempre
o que se pensa
e, isso, desvende o escriba
e seus íntimos pensamentos.
Um belo exemplo
de que juízos planos não passam
de resumos mal feitos,
eivados de enganos e preconceitos.
Por vezes, aquele que faz uso
da palavra articulada
ambiciona apenas sair
a busca de si mesmo,
por outras, lhe contenta o passeio,
sem ultrapassar os limites
de suas fantasias e medos.
Escrever pode ser como o rastro
deixado n'água pela canoa do pescador
que sai atrás do pescado, há muito,
já não avistado àqueles lados.
A mensagem da palavra pode ser nada,
um desabafo, um grito ao acaso
e não o sólido tijolo de barro
com que se ergue a casa
ou reveste-se a cela do condenado.
Seja pela pena de um escritor
ou pelo teclado do computador,
muito do que se escreve,
escreve-se alheio a qualquer rigor,
como o calo com que acostumamos
por já não nos causar dor.
Escrever é, antes de mais nada,
um ato acovardado de liberdade.
Muito do que é escrito ecoa
de um sítio incerto,
nas entranhas de quem escreve,
nem ele mesmo sabendo ao certo
que causa estranha o impele.
Rios caudalosos também se formam
pelos igarapés que os engrossam,
depois de murmurarem na escuridão
da selva, por onde correm.
Quanto do que nos vai a dentro
encontra-se aprisionado como
as águas turvas de um lago...
Não me sigam, não me citem,
não vale a pena,
pois os tantos e tão contrários
que em mim habitam,
a todo o momento se contradizem.
Provocar o que pulsa impreciso
no íntimo dos que cogitam pode
ser a mais instigante premissa
de uma escrita.
Nada mais conveniente,
nestes tempos de pós-verdade,
do que se arvorar a denunciar
o farsante e a suposta falsidade
das palavras que dele partem.
Se quisermos falar de verdade,
é bom que se comece a procurá-la
sob as camadas soterradas,
onde talvez exista um eu,
sufocando num mar de nada.

Eliseo Martinez
22.11.2022

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

424.

A invenção do amor

Nos primórdios da raça,
não se conhece do amor,
uma única pegada.
Com toda a inquietude
que faz do tempo movimento,
aconteceu que, dos seres
da natureza, coube aos homens
semear grãos de fantasia
no areal da solidão
que desde sempre os envolvia.
Imersos na própria nostalgia,
criaram, os humanos,
estados d'alma, desatinos,
ensandecidas simpatias
que apenas as suas divinas
crias pertenciam.
À busca de poder e algum alívio
à aridez da vida, erigiram altares
e em cada um deles
colocaram seus ídolos
vestidos com finos trajes.
Giraram astros, girou o mundo
e, assim, do nada, tomados
de uma súbita e incontida alegria,
começaram a falar de amor
no fim de alguma tarde fria.
Haverá sentimento
mais controverso que esse,
inventado nos idos daquele dia?
Desde então,
aos que não basta saber dele,
muito se fez para descoser o amor
do nó em que o meteram para
correr o risco de compreendê-lo.
A meio do caminho,
no Cântico dos Cânticos,
veio Salomão e equiparou a força
do amor ao poder da morte;
já dos ciúmes, que o corrói e torce,
o fez duro feito a laje de um túmulo.
Camões ousou mais, mas só cobriu
o amor de mais mistérios com
seu fogo que arde e não se sente,
seu contentamento descontente.
Muitos o ornaram
com as guirlandas mais românticas;
outros o renegaram, por destinar-se
ao fel do desencanto, verdadeiro sol
de um reino de desesperança.
Talvez seja difícil compreendê-lo
por não ser o amor uma só coisa,
mas um misto agridoce
dos sentimentos todos ou
coisa alguma além do desvario
da imaginação travessa a pregar
peças por trás das cercas.
Em algum lugar,
no silêncio de um apartamento,
dando asas aos pensamentos seus,
alguém escuta Madredeus...
E, ele, pensa assim:
com tudo o que do amor já foi dito,
falta saber do que falavam
teus lábios rubros,
quando com olhos negros
nos meus olhos duros,
me diziam "amor de minha vida",
fazendo arder em mim
esta febre que não cura.

Eliseo Martinez
16.11.2022

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

423.

Grupo de WhatsApp
(Mensagem aos de casa)


Nestes tempos encarniçados, que recado se poderia deixar aos
de casa, quando as escolhas seriam óbvias se nos concentrássemos nos fatos?
Mas os fatos nunca precisaram ser mais interpretados do que
hoje, nestes tempos de pós-verdade.
Eu, filho, irmão, pai, avô, tio e cunhado, dos que fazem parte
deste pequeno grupo de pessoas, fugindo do habitual "recorta e
cola", resolvi compartilhar algumas ideias com vocês, meus
queridos parentes.
Espero que não me queiram mal com o que tenho a dizer,
tampouco que, pela leitura não estar exatamente na ordem do
dia, o que vai aqui escrito seja de antemão posto de lado por ter
me alongado.
De fato, acho bem necessário que algumas palavras sejam ditas
neste momento em que os acontecimentos no país apontam para
graves mudanças, que visivelmente já estão afetando nossas vidas, inclusive a nível das relações interpessoais.
Em primeiro lugar, queria falar do TERRITÓRIO, que nada mais é do que o espaço de trocas de um grupo, de um coletivo.
Nós, familiares, formamos um desses coletivos.
Um coletivo de natureza diferente do que o grupo da empresa em que trabalhamos, do condomínio do edifício em que moramos
ou, mesmo, dos membros das comunidades de interesses diversos que, por ventura, nos afiliamos.
Somos um coletivo de sangue, um COLETIVO DE AFETO.
Pois bem!
Transformações históricas estão continuamente se processando no interior da sociedade e a formação social a que chamamos
"família", não escapou delas.
Se partirmos do tempo de minha neta, quem nos fornecia o território do encontro era minha avó, há cinco gerações atrás.
Aquele era um TERRITÓRIO FÍSICO, a casa da vó, onde o conjunto amplo da grande família reunia-se não uma, mas várias
vezes ao ano, por ocasião de aniversários, Páscoa, muitos fins de
semana e, obrigatoriamente, do Natal.
Era lá que fazíamos nossas trocas, sabia-se uns dos outros, resolviam-se problemas, nos divertíamos, confraternizávamos e, por vezes, também era o palco em que se desenrolavam nossos pequenos conflitos, que nunca deixaram de ser rapidamente
superados, como bons descendentes de italianos que somos.
Ou seja, um ambiente saudável, interativo, fraterno e, especialmente, vivo.
O território físico das trocas familiares praticamente deixou de existir para a grande família, restando os espaços pulverizados
das nossas famílias nucleares, às vezes, nem isso.
Hoje, esse espaço ainda resiste, com menor constância quando nos reunimos no dia das mães ou para homenagear nossa 
matriarca em mais um ano de vida.
Se o território físico praticamente deixou de existir como espaço das trocas afetivas, ele passou a existir como TERRITÓRIO
VIRTUAL, em grupos como este, no ambiente midiático, o insólito metaverso.
É o que temos para o momento!
De fato, este é o espaço possível das trocas cotidianas nestes tempos acelerados.
Se é bom ou ruim? Não vem ao caso!
Assumi a tarefa e a responsabilidade de tomar o tempo de todos aqui para ressaltar exatamente isto: que este espaço é o que
temos para exercer nossas trocas de afeto.
Não é o lugar para se fazer a cabeça de ninguém, impor ideias, seja de que tipo forem.
Mas é, sim, o espaço em que pessoas que se gostam e respeitam, podem e DEVEM se manifestar.
Manifestar-se sobre arte, culinária, causos, abobrinhas, ... e, por quê não, política, já que é algo que afeta a todos?
Afinal, somos suficientemente inteligentes para isso e igualmente bem formados para tanto.
Assim como manifestar-se sobre qualquer ideia que seja importante para cada um.
Ideias que permitam melhor nos conhecer, para saber quem somos, não apenas individualmente, mas enquanto grupo
familiar, construindo e reconhecendo nossa identidade.
Há risco nisso? Claro, meus queridos!
Sempre que alguém se expõe tem risco. A ilusão da harmonia perfeita encontra-se apodrecendo nos "campos santos" dos
cemitérios.
Além do mais, não é fácil superar o sentimento que melhor caracteriza nosso tempo: o medo.
Mas quem entre nós pode defender que este espaço tenha de ser necessariamente raso e burocrático; um espaço insípido, inodoro
e incolor, um espaço de estranhamento formal?
Mantendo regras básicas de convivência, respeito e, principalmente, de afeto poderemos criar entre nós um ambiente
que melhor nos represente e mutuamente nos enriqueça.
E, a chave para isso, nestes tempos obscuros, é apenas uma: que cada manifestação considerada "polêmica" tenha a primazia do ARGUMENTO, obedecendo a cadeia de razões que legitimam,
não uma verdade, mas uma ideia, uma opinião sincera e despojada, mesmo que apaixonada.
É justamente o caráter de unidade familiar a nos ligar que faz com que a porta de nossas casas esteja sempre aberta a cada
um dos demais ou que sempre que necessário nos ajudemos
mutuamente, por mais distantes fisicamente que nos encontremos uns dos outros.
Somos muitas cabeças, muitas vivências, muito potencial circulando pelas quatro gerações que transitam por este território.
Todos já nos alegramos com as conquistas acadêmicas, profissionais ou afetivas de alguns; lugares distantes conhecidos por outros; dons e habilidades demonstrados em suas trajetórias de vida; oportunidades que se abriram a cada um...
Por outro lado, alguns se expressam artisticamente e sua arte nunca aparece aqui; tem quem se afeiçoe a escrita e seus
escritos não estão aqui; tem os que realizam atividades religiosas e elas não ecoam aqui; tem os que têm projetos e eles não
passam por aqui; têm os quase todos que se deparam com pequenos ou grandes obstáculos e eles nem sempre são
compartilhados com os demais no espaço que temos...
Ou seja, preservadas as diferenças de cada um, o que está em questão aqui é uma concepção de família, que nada tem a ver
com o estereótipo da "família feliz", em meio a um mundo que se contorce.
Este não tem de ser um espaço onde todos concordem, mas o espaço onde as pessoas se respeitem e, acima de tudo, se
reconheçam sem medo.
Não deveria ser o espaço em que estranhos, vagamente conhecidos, compartilham um nome, que não se sabe bem de onde veio.
Não podemos temer nossas diferenças, diferenças que estão aí. Elas existem!
Uns de nós são gremistas, outros colorados e já existiram os cruzeiristas, como meu pai; uns de nós são religiosos, outros ateus; uns são de direita, outros de esquerda e quem sabe que outras diferenças nos unam?
O que não podemos nos transformar é em um coletivo pobre, minado por rancores silenciosos, justamente porque não se
expressam, coparticipes de um espaço formal e estéril como os que surgem numa empresa ou condomínio, onde cada um tem
de andar pisando em ovos, com o cu voltado para a parede!
Portanto, tomo a liberdade de propor que se um de nós, QUALQUER UM, que tiver algo que ache realmente importante a ser exposto de modo a contribuir na educação ou na formação da opinião dos demais, sinta-se livre para o fazer.
Dê sua sincera contribuição, livre e afetuosamente.
Beijos e abraços a todos!

Eliseo Martinez
30.10.2022 (dia das eleições presidenciais no país) 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

422.

Lembrança e esquecimento

Passado algum pode ser
simplesmente apagado,
desde a escuridão
das noites sem fogo
e dos perigos da caça
gravados no subterrâneo
coletivo das mentes,
ainda hoje, latentes
nos medos de toda gente
espalhada pelos amplos
cercados globalizados;
ou da turva lucidez
de um único homem,
ante as dobras do que foi,
por ele, vivenciado,
vendo, aos poucos,
a inocência do desejo
lhe sendo roubada.
Chega o tempo em que
a bacia do esquecimento
vai pelo meio,
enquanto o pote cheio
das reminiscências
transborda, abarrotado
de sonhos desbotados,
adensando o lado
perverso da existência
dos que foram condenados
pela consciência,
convictos na crença
no que de mais humano
leva o homem em sua
aventura mundana.

Eliseo Martinez
04.11.2022