Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

435.


Coisas do bairro Tristeza


O alarido geral é apenas contido
com a breve ansiedade
do par ou ímpar, que define
quem vai e quem fica.
A função obedecia a uma única lei,
igual número de partícipes
para cada uma das equipes.
Pelota no centro e o alvoroço
lembrava uma revoada
de andorinhas em bando,
sem plano de voo traçado,
ziguezagueando nos céus
do final dos anos dourados.
Perninhas corriam ágeis
pelos espaços do campo,
sem muita intimidade
com as regras do jogo.
Alguns nem chegavam
a tocar na redonda,
de tantos que eram,
se agitando num frenesi
pelo campinho improvisado,
sem nada que traduzisse
tamanho entusiasmo.
Instalada a algazarra,
não havia quem não se
contagiasse com a gritaria
animada da gurizada.
Num golpe de vista,
calhou de bater os olhos
na linha divisória
do ralo gramado,
riscada no areal do bairro
e, de repente, estacou feito
estátua de mármore,
como um relógio parado
que já não fizesse
o que tem de fazer
por ter a corda quebrada.
A xingaria da piazada aliada
caiu sobre ele ao dar
passagem fácil ao mais
pequerrucho dos adversários.
Avistara o amigo do peito,
o Danilo, solito, fora da cena,
cabisbaixo, todo sem jeito.
Não havia que pensar
duas vezes.
Solidário ao amigo,
feliz consigo mesmo,
saiu do campo,
abandonando a partida.
Levava com ele
o sorriso divertido
colhido nas fintas e dribles,
mais ensaiados que dados,
junto dos camaradas,
e foi fazer companhia
ao Danilo, coitado.
O amigo, ao vê-lo sair da peleja,
não se fez de rogado.
De pronto, acenou
para o plantel desfalcado
e entrou animado no jogo,
ocupando a vaga do outro.
Sem entender bem o gesto
do parceiro de sempre,
agora, o guri ímpar era ele,
e ficou lá, parado,
à margem do campo,
olhando pro nada, frente
a alegria obscena dos outros,
trumbicando as jogadas.
Talvez o olhar enviesado
que pela vida leva consigo
tenha sido plantado
na inocência daquele sábado,
no jogo de bola da criançada,
à margem do campinho,
sem gramado,
do bairro Tristeza.

Eliseo Martinez
22.02.2023

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

434.


Os outros

O aviso veio pelos correios.
Deu de ombros.
Por certo, tratava-se de engano.
Ao receber nova intimação, mesmo que um tanto intrigado,
compareceu à data e horário marcado.
Antes, foi aconselhado a falar apenas o necessário, de resto,
melhor ficar de bico fechado.
Chegando à repartição, apresentou o papel e foi guiado por um extenso corredor ladeado de bancos desocupados, em um
ambiente que perdia claridade a cada passo que dava.
Depois de um tempo, que não saberia precisar, ouviu uma voz que lhe pareceu sair do fundo de um poço, chamando seu nome.
A sala, mal iluminada, lembrava um conto de Kafka.
Sentado à frente do Intendente Geral identificou-se e,
apreensivo, passou a responder um pequeno inquérito de
perguntas aleatórias, sem ver sentido algum nos rumos do
interrogatório.
A atmosfera ficava entre o grave e o bizarro.
Provavelmente, pela falta de norte, o assunto seria ali mesmo encerrado.
Há entes públicos que se movimentam para não passarem por
desnecessários.
De fato, já estava sendo despachado quando, ainda ignorando
do que se tratava, foi tomado de uma falsa segurança e o
movimento insubmisso do espírito o fez enveredar pelo ato
inesperado.
Talvez, uma resposta impertinente pelo inusitado chamado.
Sabe-se lá o que passa pela cabeça dos desalinhados ao se sentirem pressionados.
A verdade é que, sabendo o que se sabe desses braços obscuros
do Estado, é um caso a ser estudado!
Começou assim, pelo fim.
Já que lá estava, pediu permissão e voluntariou-se a rabiscar
de próprio punho os termos do insólito tema que há algum tempo amadurecia na mente, em segredo.
Foi encorajado a entrar no assunto.
De início, mostrou-se confuso, tentando firmar pés para o que
na cabeça se agitava convulso.
Tentou teorizar sobre os caminhos difíceis em que se meteram as palavras, cada vez mais incompreensíveis no trajeto entre a boca de quem saiam e os ouvidos que as escutavam.
Reclamou da metástase das narrativas, fazendo proliferar
sentidos não sugeridos para a mais cristalina verdade que exista.
Logo, afirmou estar farto do mundo dos homens, incluindo nisso, praticamente, todo e qualquer ser humano.
De fato, declarou-se atraído pelo lado mais despovoado da vida.
Pedia para desliga-se do meio, ou seja, queria dar um tempo a cada um de todos os outros, próximo ou distante, conhecido ou estranho.
Ser um ermitão de apartamento, invisível clandestino no labirinto de cimento.
Continuar por ali e, no entanto, tomar chá de sumiço.
Escafeder-se de vez!
Menos gente, mais espaço e tempo, era como podia ser resumido
o seu pleito, o que era também, uma espécie de confissão, a seu
jeito.
Insuflado de confianças, declarava não precisar de muito, ter
consciência de quem era, ser apto a regar o pequeno lote controverso de si mesmo, que dá cor e textura à tela cinza e plana da existência.
Admitiu que se saciou do que haviam todos combinado ser a realidade e achava-se cada vez mais propenso ao insólito do inesperado, ao que escapa aos códigos de barra, às cartas marcadas, tendo, talvez, contraído algum novo vírus que lhe eriçava os pelos da cara ao menor sinal de consenso.
Sim, confessou também isso, sem suspeitar que seu caso, talvez
banal à princípio, agora, azedava ao negar não apenas o ventríloquo, o equilibrista ou o palhaço, mas o circo todo e o
respeitável público, por trás das máscaras.
Afirmou que ao dar movimento ao desejo foi descobrindo outros
cenários, outros enredos e, mesmo que admitisse um diminuto círculo de nômades parceiros, encontrou a paz em si mesmo.
O resto todo era só um monte de olhos e bocas, um murmúrio de
sombras sem rostos, aglomeradas debaixo da lona.
Pintou com palavras o escuro quadro como desse vida aos traços
de um iberê camargo.
Como se não bastasse, ao ser indagado dos laços, mais uma vez,
exasperou o Intendente dizendo-se indiferente ao repique dos sinos sob o auspício das batinas e a alçada das patentes, em uma clara afronta a ordem vigente.
Bastava-lhe a companhia dos poetas menores, dizia.
Os sem fardões ornados com ouro ou ramos de louro, mas que,
inconformados, transitavam insubmissos pelos poros dos tijolos,
descarnando coisas pequenas cheias do lume da vida, catando grãos deitados ao chão do cotidiano, sem que deles, os demais dessem por conta.
Acabou pelo início.
Do mundo dessacralizado, o fio da vida, disse, foi o que lhe restou de sagrado, fazendo tingir de vermelho as bochechas do já impaciente Intendente.
Disse mais.
Disse não hesitar, tanto na momentânea morte em vida quanto na definitiva vida morrida, rotineira ou bandida, trágica ou divertida, sempre a optar pela vida, dia após dia, ainda que ela insistisse em lhe banhar as canelas no mar da melancolia.
Era assim que sentia.
Foi tomado de um sentimento de alívio, quase satisfeito, ao esvaziar-se ante o Intendente.
Afinal, havendo alguém que entendesse de coisas outras, quem mais senão o Intendente a sua frente?
De requerente passou à réu, de repente, testemunhando que até
o mais pesado aparato burocrático tem lá seus destravancos e, como já não mais primário, segundo notas encontradas em algum empoeirado diário, a pena imputada foi dura e sumária:
¬ "Culpado!"
Vociferou do alto o alto funcionário, como a reencontrar razões a seu insólito trabalho.
¬ "Não só fica negado o que consta da petição, ora, apresentada, como o requerente é condenado a passar cada dia que lhe resta entre o resto da espécie a que inapelavelmente se inscreve e, acaso seja flagrado a vagar pelas ruas solitário, chutando latas pelo caminho, se esgueirando pelos atalhos, de pronto, será recolhido aos Muros do Condomínio, passando a cumprir sua pena entre parentes, supostos amigos e vizinhos."
Assim, o Intendente entendeu, dando o caso por encerrado, depois de fazer o meirinho entregar ao condenado uma extensa lista de eventos a que ele ficava, desde então, obrigado: batizados, formaturas, velórios, aniversários...
Ah! E que não faltasse, sequer, a uma única quermesse da paróquia ou amigo-secreto a que seja convidado, e que se esmerasse ao ser visitado, retribuindo com sorriso nos lábios cada sábio comentário!

Eliseo Martinez
13.02.2023