Coisas do bairro Tristeza
O alarido geral é apenas contido
com a breve ansiedade
do par ou ímpar, que define
quem vai e quem fica.
A função obedecia a uma única lei,
igual número de partícipes
para cada uma das equipes.
Pelota no centro e o alvoroço
lembrava uma revoada
de andorinhas em bando,
sem plano de voo traçado,
ziguezagueando nos céus
do final dos anos dourados.
Perninhas corriam ágeis
pelos espaços do campo,
sem muita intimidade
com as regras do jogo.
Alguns nem chegavam
a tocar na redonda,
de tantos que eram,
se agitando num frenesi
pelo campinho improvisado,
sem nada que traduzisse
tamanho entusiasmo.
Instalada a algazarra,
não havia quem não se
contagiasse com a gritaria
animada da gurizada.
Num golpe de vista,
calhou de bater os olhos
na linha divisória
do ralo gramado,
riscada no areal do bairro
e, de repente, estacou feito
estátua de mármore,
como um relógio parado
que já não fizesse
o que tem de fazer
por ter a corda quebrada.
A xingaria da piazada aliada
caiu sobre ele ao dar
passagem fácil ao mais
pequerrucho dos adversários.
Avistara o amigo do peito,
o Danilo, solito, fora da cena,
cabisbaixo, todo sem jeito.
Não havia que pensar
duas vezes.
Solidário ao amigo,
feliz consigo mesmo,
saiu do campo,
abandonando a partida.
Levava com ele
o sorriso divertido
colhido nas fintas e dribles,
mais ensaiados que dados,
junto dos camaradas,
e foi fazer companhia
ao Danilo, coitado.
O amigo, ao vê-lo sair da peleja,
não se fez de rogado.
De pronto, acenou
para o plantel desfalcado
e entrou animado no jogo,
ocupando a vaga do outro.
Sem entender bem o gesto
do parceiro de sempre,
agora, o guri ímpar era ele,
e ficou lá, parado,
à margem do campo,
olhando pro nada, frente
a alegria obscena dos outros,
trumbicando as jogadas.
Talvez o olhar enviesado
que pela vida leva consigo
tenha sido plantado
na inocência daquele sábado,
no jogo de bola da criançada,
à margem do campinho,
sem gramado,
do bairro Tristeza.
Eliseo Martinez
22.02.2023
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