Outras coisas do bairro Tristeza
Dos meninos das redondezas, acreditavam que ele fosse o único a ter vislumbrado a face oculta do proibido.
Numa manhã de dia claro, ao sair do grupo escolar, cruzou com cuidado a movimentada avenida e, depois, a pracinha do bairro.
Logo chegou a rua em que morava, avistando o grupo de garotos mais velhos vindo no sentido contrário.
Quando deu por si, já estava entre eles, cercado.
Tentou esconder o medo que as perninhas trêmulas denunciavam, simulando coragens tiradas de heróis dos seriados.
Guilherme Tell ou Ivanhoé estavam nele, caso fosse necessário.
Eram meninos do bairro com quem, vez por outra, jogava bola, peão, taco, bolita de gude e pega ladrão, além de empinar pipas, sem esquecer da torcida nas brigas de uns contra os outros, é claro, e tudo o mais que, àquele tempo, povoava a infância da molecada da periferia da cidade, enquanto um eterno país do futuro mergulhava nos anos de chumbo da ditadura.
O fato é que o boato correu pelo bairro e acabaram por desconfiar que aquele maldito pirralho era o cara.
Coisa que não era bem digerida pelos pequenos caciques da tribo.
Por mais de uma vez foi visto com a menina do andar térreo, um ano mais velha, a lhe pegar pelo pulso e o arrastar para trás do edifício de três pisos, o único àquela época, a disputar com a copa das árvores a linha do horizonte do bairro Tristeza.
À princípio, lá ia ele a contragosto, mas logo, as repetidas incursões foram despertando coisas estranhas no tenro corpo.
Naquelas tardes, se embretando por entre as folhagens, metiam-se, ele e ela, debaixo de um caramanchão criado ao acaso pelas ramas das árvores, como que dois passarinhos ao abrigo do ninho, bem no meio do que todos chamavam simplesmente "o matinho".
A despeito de toda a inocência, de mãos dadas, tateavam pelo mundo novo do mais antigo instinto originário.
Sem entender bem o que se passava, iniciavam-se nos segredos até então proibidos a meninas e meninos.
Os outros queriam saber como era; queriam que ele lhes desvendasse de uma vez o mistério do que apenas imaginavam por uma palavra ouvida aqui, um folhetim folhado às escondidas ali, lhes aguçando os sentidos.
Refeito do susto, pode ler nos rostos que o encaravam de cima a birra pelo que apenas ele sabia, mas também, uma espécie de respeito reverente por ter se aventurado pelas trilhas fora dos mapas, até então, conhecidos da vida.
Decifrada a ameaça estampada nas caras que se faziam malvadas, cresceu sobre o par de vulcabrás negro que calçava.
Sem dizer palavra, com a segurança de um iniciado ante os ainda não iluminados, pegou um graveto que encontrou por ali mesmo e, com ele, riscou na terra vermelha dois traços curvos que se encontravam nas extremidades, feito canoa, e um terceiro que descia da popa à proa.
E era isso!
O desenho improvisado, com apenas três riscos calcados sobre o chão batido, lembrando vagamente um pequeno grão de café partido, girou a chave das portas do desconhecido, lançando inquietantes indícios que poderiam leva-los a desvendar o mais bem guardado segredo da esfinge.
Curvados sobre o que havia sido rabiscado no piso, entre surpresos e incrédulos, de olhos arregalados feito ovos estrelados, ouviu sair das bocas entreabertas a exclamação em uníssono que guardará para sempre consigo.
Ûhhhhh...!
Todos, ali, fascinados, ficaram a imaginar como as carnes se entrelaçariam com os traços.
Jogou o graveto para o lado e saiu com o peito estufado, no triunfo memorável de seus sete anos de idade.
Já a certa distância, pode ver os outros por cima do ombro.
Postos em círculo, mudos, perplexos, provavelmente como os primeiros da espécie a vislumbrarem a centelha de fogo que arde num galho seco de cipreste, prenunciando ritos de passagem ante o enigma, agora, parcialmente desvendado.
Eliseo Martinez
06.03.2023
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