Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 12 de abril de 2023

437.

Menina de apartamento

Na candura de seus poucos anos,
depois de tentar alcançar
os botões de comando do elevador,
chegou à porta de onde morava o avô.
Circulou ávida pela casa
e, de pronto, pediu para subir ao jardim,
que não passava de um pequeno espaço
no terraço guarnecido
por alguns vasos bem cuidados.
Chegando à entrada do "jardim",
a pequena segurou a mão do velho
que mal se dava conta
do tamanho que a exígua área
ocupava naquele já vasto imaginário.
Entravam em um estranho território
feito de mistérios e perigos,
povoado de criaturas esquisitas.
Penetrando com cuidado no interior
da selva que vicejava ao alto do prédio,
ela viu seres terrestres e alados
entre a rama das folhagens
e pelas beiradas do telhado.
Um carreiro de formigas aqui,
uma joaninha vermelha
salpicada de bolinhas pretas ali,
um temível marandová acolá,
um pequeno grilo verde
e até uma lagartixa
correndo pelo muro baixo
para se esconder atrás
de um par de vasos.
Com poucos passos o território todo
havia sido explorado e a menina
seguia submersa na aventura,
de olhos arregalados,
com a mão bem apertada na mão
do velho guia do safari improvisado.
De repente, um pardal
pousou a alguns passos,
nas pedras amarelas do piso do terraço.
Maravilhada, a menina imóvel,
apertou ainda mais a mão do avô
e, com um sorriso de lado a lado,
falando baixo, lhe perguntou:
¬ é de verdade, avô?

Eliseo Martinez
12.04.2023

Um comentário:

  1. Sobre o escritor e sua escrita. Repito, o já dito em outras oportunidades: Muito me agrada a forma como te aproprias das palavras, a composição das frases nesse exercício da arte criativa de escrever. Gosto da inserção em temas contemporâneos, em que pede, as vezes divergir do olhar do escritor. Coisas do pensar! Neste _Menina de apartamento_ , no entanto, há afeto fluindo, geografia interior pulsando. No encontro de gerações, em comum os laços de sangue e de afetos, a criança de apartamento -avida da vida_ num limitado jardim de cobertura se aconchega num adulto e de mãos dadas, um guiando o outro descobrem outras vidas. Afetos fazem bem nesses tempos tão bicudos e de tantos sentimentos virtualizados. Não bastasse, a chegada repentina desse pássaro de verdade da um tom de encantamento ao texto. Vai além, sugere quanto um e outro protagonista pode ser um pássaro de verdade. Narrativa interessante, Eliseo.

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