A espessura das trevas
No interior de cada ser humano
existe uma região de sombras,
onde se aloja o turvo emaranhado
de suas crenças e seus piores medos
se escondem, inaugurando o espaço
das mais íntimas desavenças.
Mas, mesmo que ínfima existência,
a vida ascende com o brilho
da fagulha das estrelas.
Se algo tece as malhas do destino
ele está sendo inscrito no contínuo
embate entre esses mundos interiores,
em conflito.
E, assim, em cada um,
coexistem os diferentes,
fazendo do bem e mal
parceiros para sempre.
A contabilidade faz as contas
pesando as quantidades
nos pratos da balança,
definindo as qualidades
já insinuadas na infância.
Por vezes, avessos à inquietude
e complacentes com o autoengano,
nos entregamos às ilusões
das barganhas cotidianas.
É quando, dos outros todos,
só vemos bocas e olhos nos vigiando
e o medo, ora ubíquo, no comando.
Na teia que nos prende ao tempo,
afeiçoados às imagens retocadas,
tememos o risco de sermos livres,
paralisados ante o nada.
Outras, vestidos do que vai adentro,
inconformados e malditos,
carregamos a dor de saber que,
bons ou maus meninos,
todos somos vasos rachados,
se não inteiramente partidos.
É quando, heróis do próprio mito,
paga-se o preço pelos grãos moídos
na mó dos solos e desvalidos,
acreditando ser possível sermos livres,
mesmo no lado escuro do paraíso.
E, nos demais, já não vemos mais
do que nós mesmos,
cúmplices de um único destino,
guiados pelo visco do desejo.
E, assim, em cada um
coexistem os diferentes,
fazendo do bem e mal
parceiros para sempre.
Eliseo Martinez
28.04.2023
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