Paixão
Há sentimentos deveras tão intensos
que consomem em febres quem os sentem.
Eu e tu não fomos para sempre,
mas nossa meia vida juntos foi suficiente
para riscar a lente com que vemos
muito do mundo que passa a nossa frente.
É certo que as paixões arrefecem,
mas se engana quem acha
que elas simplesmente desaparecem.
Antes, se enovelam num buraco
que nos abrem no vão do peito
e ficam ali, hibernando acueiradas,
longe das vistas, fora do tempo.
Nada mais sei de ti
e, talvez, seja melhor assim.
Quanto a mim, já não levo na aljava
o feixe inteiro das setas que nos magoaram.
Umas, ressecadas, se quebraram;
outras, feitas com vara verde,
já não servem ao arco dos desejos.
Umas poucas guardo comigo,
pois viver se faz preciso.
Eliseo Martinez
05.05.2023
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