Os fios de todos nós
Que hoje somos mais fragmentados
que em gerações passadas
é hipótese das mais plausíveis,
e nem mesmo constitui
novidade um tal deslize.
No entanto, não é razoável
que, para seguir em frente,
se passe a negar o fio
que nos conduziu até o presente.
Sempre me pareceu ato desesperado
mobilizar esforços
para pôr-se em fuga do passado,
como faz o rato que tenta
roer a própria cauda ou o coelho
que vive a fugir do lobo, assustado.
Todos temos direito a nossa história,
com seus desertos, planícies
e planaltos acidentados.
De fato, a pureza é uma construção
dos teólogos, dos românticos incuráveis
e dos agentes sanitários.
Nada resiste ao tempo, imaculado,
a essência de tudo é já nos vir
com o diverso, misturado.
Talvez nos seja mais útil aprender
a trançar com o véu do esquecimento
o lume das lembranças de cada raro
e precioso momento,
sem nos deixar levar pelo impulso
de arrasar campos inteiros
das tantas vidas que vivemos,
a seu tempo, por inteiro.
Resgatar para ressignificar
nossas memórias,
antes de um excesso de nostalgia
encravado no agora,
é afirmar e ter apreço por nós mesmos,
podendo olhar nos olhos ante o espelho,
com os acertos e erros cometidos
no curso do trajeto em que nos vemos.
Eliseo Martinez
12.05.2023
Nenhum comentário:
Postar um comentário