Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 16 de abril de 2023

439.

Descaminhos

Já compartilhei das imprescindíveis
ilusões de um mundo novo,
radicalmente diferente
e, como cada um ali presente,
fui mais que eu entre as ondas
que agitavam o mar de gente.
Já ergui os punhos
contra ventos do desalento
e, ombro a ombro, colhi alegrias
junto a outros sempre prontos
a compartir de seus talentos.
Àqueles dias, não duvidava
que o gesto mais correto
era seguir em caravana,
levando o sal e o mel pelos desertos.
Das jornadas que dão sentido à vida,
não há que se recuar
nem mesmo um milímetro.
Mas os dias abrasadores
seguidos das noites frias
foram desfiando os cobertores
e ferindo um corpo
tatuado de cicatrizes.
A bem da verdade, os danos causados
eram bem mais que a soma
de um punhado de casos isolados.
Pouco a pouco, por toda a parte,
o arranjo todo começou
a dar sinais de cansaço e o tempo,
convenhamos, sempre escasso,
acabou fazendo o que o tempo faz,
girou sobre si mesmo e, quando se viu,
estava andando para trás.
Primeiro, o medo apossou-se dos olhares.
Depois, se foram os abraços.
Logo, as mãos já não se tocavam
e as bocas, que insistiam, metalizaram.
As palavras... Há! As palavras
já não diziam nada, esvoaçando
como borboletas descoloridas,
de asas dilaceradas.
Por fim, escasseou o trânsito dos amigos,
que já não eram vistos
nem mesmo batendo copos
no refúgio dos abrigos.
E, alguns, que não se topasse
em uma noite escura sem ser preciso...
Com mãos nuas
enterrei meus próprios mortos.
Dura foi a lição, até que me fiz
hábil jogador nos jogos de traição.
Menti, matei, morri
tantas vezes que me perdi.
Entre próximos e forasteiros,
fui aprendendo a iludir a mim primeiro,
enquanto uma onda sem esperança
inundava o mundo todo,
ressuscitando nefastas alianças.
Quando já não se selavam cartas,
criamos novos sinais de fumaça.
Mesmo à falta de intenção,
receosos de solidão,
só fizemos por prosperar a trapaça.
Sempre propositivos,
seguimos inventando outros ritos,
tateando outras saídas,
estendendo arames sobre os precipícios.
Da voz que se ia pelos fios,
fez-se algo ainda mais prático
e frio, para ser exato.
Nos conectamos à distância,
sem o calor de quando era permitido,
vez por outra, sermos frágeis feito crianças.
E o fosso estava cavado pelo braço
e esforço dos coveiros que nos tornamos,
enterrando o que ainda restava de inteiro,
esquecidos dos velhos planos.
Não, não me chamem de covarde,
niilista, renegado de classe.
Não me enredem na teia frágil dos afetos.
Não me seduzam com a promessa
de um "nós", de peito aberto.
Há muito o clube não abre vagas
e o traje requer que se esteja encapuzado.
Hoje, apenas quero-me longe dos tentáculos
de um besta chamada "os outros".
Muito do que é vivido, vive-se por eles,
esquecendo-nos dos que importam,
inclusive de nós mesmos.
Como as vagas que vão à praia,
eu também me fui ao mundo,
agora, quero-me de volta
do brejo raso onde vagam,
sem rumo, os insepultos.
À medida que se aproxima o fim,
desejo saber um pouco mais de mim,
além do entorno que me fez não outro,
cavaleiro generoso, mas assim.
Mais uma vez com o pé na estrada,
parto nessa intrínseca jornada,
na busca do que em nós vai se diluindo
nos círculos dos, agora,
estranhos conhecidos,
antes que o tempo vá toldando
as crenças do que somos,
fazendo com que nos percamos
entre as versões que nos tornamos.
Depois de ser um a arar os campos gerais,
me recolho às flores poucas do meu quintal.
Já não me quero longe quando o sol
declinar no horizonte dos meus olhos,
sem tempo de retornar
às pedras que me acolhem.

Eliseo Martinez
16.04.2023

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