469.
Improvável liberdade
Feras e homens sem propósito
respiram ares contaminados,
confinados aos domínios
circunscritos do presente,
em fuga permanente
do tempo que escorre lento
no fluxo sem controle
dos momentos, acalentando
ilusões que os mantenham
livres da dor e o sofrimento.
Imersos no vácuo desmedido
da improvável liberdade,
só a náusea lhes confirma
a existência ante velhos
totens da verdade.
No tempo plano dos bichos
de toda a espécie,
feras e homens sem propósito
são forças irascíveis da natureza,
imoladas pelo fogo que arde
detrás dos olhos,
tomadas pela pulsão
de saciar fomes e sedes,
entregues ao apelo incontrolável
das paixões e dos desejos.
Feras e homens sem propósito
- sejam tristes ou contentes,
conformes ou divergentes -,
levam no vão do peito
a centelha do caos originário
de que são os fiéis depositários,
sob o jugo dos caprichos
de deuses bastardos,
coléricos, sanguinários,
pela imaginação e o medo,
por eles mesmos criados.
Eliseo Martinez
22.04.2024