Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 22 de abril de 2024

469.

 Improvável liberdade


Feras e homens sem propósito
respiram ares contaminados,
confinados aos domínios
circunscritos do presente,
em fuga permanente
do tempo que escorre lento
no fluxo sem controle
dos momentos, acalentando
ilusões que os mantenham
livres da dor e o sofrimento.
Imersos no vácuo desmedido
da improvável liberdade,
só a náusea lhes confirma
a existência ante velhos
totens da verdade.
No tempo plano dos bichos
de toda a espécie,
feras e homens sem propósito
são forças irascíveis da natureza,
imoladas pelo fogo que arde
detrás dos olhos,
tomadas pela pulsão
de saciar fomes e sedes,
entregues ao apelo incontrolável
das paixões e dos desejos.
Feras e homens sem propósito
- sejam tristes ou contentes,
conformes ou divergentes -,
levam no vão do peito
a centelha do caos originário
de que são os fiéis depositários,
sob o jugo dos caprichos
de deuses bastardos,
coléricos, sanguinários,
pela imaginação e o medo,
por eles mesmos criados.

Eliseo Martinez
22.04.2024

sexta-feira, 5 de abril de 2024

468.

Júlia
                                                   

Dos amores difíceis
tu és o mais perfeito deles.
Te amar é decidir perder-te
vezes sem conta
para que tu mesma te encontres.
E, no entanto, meu amor,
entre tanto solavanco
no caminho sinuoso deste afeto,
nada me faz mais feliz
do que te ter perto.
Que o tempo amoleça
se fazendo nosso aliado
e, com olhar acarinhado,
faça cantigas de ninar
dos ruídos do passado.
Quanto aos dias escorridos
entre tantas idas e vindas,
só me resta lamentar,
minha filha.
Se fortalecer laços
não te faz sentido,
quem sabe ainda supere
tão lamentável desperdício
com o olhar mais à frente,
a te revelar o quanto se está só
em meio a toda gente.

Eliseo Martinez
05.04.2024

quinta-feira, 4 de abril de 2024

467.

Grão da felicidade


Foi em uma manhã como tantas,
feita daquela mesma morna
tirania de todo o dia.
Dia normal em que
os suicidas se animam
e, em silêncio,
tramam planos de desenlaces;
os pensamentos liquidificam
sem aportar em qualquer parte
e as indecisões se multiplicam
minando toda a sorte.
Nada parecia ameaçar
o trivial arranjo
da cena em movimento.
Até que o mal,
surgido da morte da inocência,
plantado por todo o lado,
feito fogo que se alastra pelo prado,
de súbito, foi contido por algo
que, do nada, injetou algum sentido
no non sense daquela gente,
entregue ao labirinto de suas mentes.
Cruzando a rua, luzia em sorrisos
o par em seu despreocupado passo,
tingindo de encantos
aquele canto entristecido da cidade,
no contentamento desconcertante
da quase esquecida felicidade.
Justo naquele instante, deu-se o que
um desses místicos do cotidiano
não relutaria em atribuir
ao antinatural e sobre humano.
Um raio de sol, tal qual lança de luz,
vazou por entre as nuvens prateadas,
como se um misterioso cenógrafo
fosse o responsável
por deixar a rua iluminada.
Passada a estranheza
dos que ali seguiam-lhe os passos,
se sentiram contaminados
com o grão dourado da felicidade
trazido a suas vidas mal vividas
pelo par enamorado.
E, também eles,
descongelaram os lábios,
sorrindo para si antes do que
para os que passavam ao largo,
cada qual entregue àquele átimo,
redivivo pelo rastro
de perfumes do passado
presos nas dobras de suas
almas ressecadas.

Eliseo Martinez
04.04.2024

segunda-feira, 1 de abril de 2024

466.

Mediterrâneo


Pelo fluxo de êxodos,
esperanças e desenganos,
à volta do Lago Mediterrâneo,
desembarcados nos portos
de Nápoles, Marselha ou Barcelona,
o espeço caldo das culturas
mistura fomes, falas e cores,
temperado aos cantos de cada canto
e ao pranto de suas dores.
Pela força incontrolável do destino,
ainda que grávidos de conflitos,
depois de transitar como estranhos
bandos divergentes,
o encontro dos diferentes,
apaziguados das diferenças,
refunda babilônias no presente,
na difícil arte de se reconhecerem
todos na mesma gente.

Eliseo Martinez
25.02.24