Grão da felicidade
Foi em uma manhã como tantas,
feita daquela mesma morna
tirania de todo o dia.
Dia normal em que
os suicidas se animam
e, em silêncio,
tramam planos de desenlaces;
os pensamentos liquidificam
sem aportar em qualquer parte
e as indecisões se multiplicam
minando toda a sorte.
Nada parecia ameaçar
o trivial arranjo
da cena em movimento.
Até que o mal,
surgido da morte da inocência,
plantado por todo o lado,
feito fogo que se alastra pelo prado,
de súbito, foi contido por algo
que, do nada, injetou algum sentido
no non sense daquela gente,
entregue ao labirinto de suas mentes.
Cruzando a rua, luzia em sorrisos
o par em seu despreocupado passo,
tingindo de encantos
aquele canto entristecido da cidade,
no contentamento desconcertante
da quase esquecida felicidade.
Justo naquele instante, deu-se o que
um desses místicos do cotidiano
não relutaria em atribuir
ao antinatural e sobre humano.
Um raio de sol, tal qual lança de luz,
vazou por entre as nuvens prateadas,
como se um misterioso cenógrafo
fosse o responsável
por deixar a rua iluminada.
Passada a estranheza
dos que ali seguiam-lhe os passos,
se sentiram contaminados
com o grão dourado da felicidade
trazido a suas vidas mal vividas
pelo par enamorado.
E, também eles,
descongelaram os lábios,
sorrindo para si antes do que
para os que passavam ao largo,
cada qual entregue àquele átimo,
redivivo pelo rastro
de perfumes do passado
presos nas dobras de suas
almas ressecadas.
Eliseo Martinez
04.04.2024
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