Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 22 de setembro de 2024

484.

(In) Definições


Cedo ou tarde,
em um dia chuvoso de inverno,
somos levados a nos perguntar
sobre quem, de fato, amamos no passado
ou por quem fomos amados de verdade.
Mas, basta ousar ir um pouco mais fundo
do que parece letra morta a todo mundo
para nos darmos conta de que nada
é tão simples, assim, neste assunto.
Afinal, o que é esse tal de amor
de que todos falam senão a quimera
alimentada por insólitos motivos
com que queremos dar forma e sentido
aos afetos que nos calham pela vida?
Talvez seja mais uma vontade de sentir
do que coisa que se sinta; um selo
de qualidade conferido a nós mesmos
e aos parceiros que tivemos.
Talvez seja uma ideia
como as que dão razão a caminhada;
uma meta indefinida a ser alcançada;
uma marca prime de mercado.
Muito já foi dito sobre o amor
e, dele, jamais se dirá tudo.
E é justo neste ponto cego que parece
estar contido seu segredo oculto.
Das coisas mais sensatas já ditas
sobre o amor, diz-se que não se trata
de um único sentimento,
mas de uma cesta repleta deles.
Se esse for o caso, quem decide o que
deva conter esta preciosa cesta?
Seria tarefa do amante escolher
ou já têm lista pronta que os forneça?
No caso da cesta ter quem lhe defina
o conteúdo, o quê deverá pôr nela
o feliz sortudo?
Ele encontrará no que vêm enraizado
em seu passado ou deve aguardar
para que ainda ramifique em seu futuro?
Terá de respeitar algum critério obscuro,
notórios preceitos estéticos, éticos e culturais
ou pode conter itens indesejados pelos locais?
Uma vez vindo à luz o amor,
seria igual em toda parte
ou seria único feito obra de arte?
E essas são apenas algumas
das infindáveis questões
sobre este estranho sentimento
que, por alguma desarrazoada razão,
encontra-se presente,
senão nos corações, plantado
no fundo de nossas mentes,
incensando ilusões em toda gente.
Provavelmente, numa pesquisa,
dessas para tentar avaliar as escolhas
que se fazem pela vida,
a percepção sobre o amor,
antes de qualquer outra,
confirme o que todos sabem
ou pensam que sabem,
sabendo quase nada:
"melhor não fazer pergunta alguma,
amor é coisa que não se explica
e, sim, coisa para ser sentida".
Melhor ainda!
Talvez devamos ser realistas e admitir
que quanto a isso morreremos na ilusão
e continuar a pensar no amor
como uma bola de sabão
que, desencantado, se faria em nada,
ao se querer pegar com a mão.

Eliseo Martinez
20.09.2024

domingo, 8 de setembro de 2024

483.

"Derevaum seraum!"


Na arquitetura dos coletivos,
no peculiar amálgama de ordem necessária,
caos inevitável e o incalculável do acaso,
clivada de boas intenções
e contraditórios interesses dissimulados,
que estorvo maior que o próximo,
corroendo o mito dos camaradas
compartilhando seus sonhos com os nossos.
No trânsito congestionado de humanos,
disputando esperanças mal plantadas
pelos conturbados canteiros urbanos,
o que pode ser ameaça maior
ao simulacro da liberdade
do que regras e leis previamente fixadas
na ferrenha rinha diária
de cada um contra todos
pelas arenas de toda parte?
Enredados na teia das circunstâncias,
onde realidades circundantes
são naturalmente veladas,
operam-se mais do que as leis já postas,
aguçando o gozo privado em negligenciá-las
por trás das portas,
à meia-luz dos castiçais de prata
ou nas sombras que dançam
sob lamparinas de lata.
Para além das conhecidas mazelas,
não faltam amarras das quais pouco se fala.
Véus interpostos entre nós e o mundo
encobrem leis imutáveis,
sem meios de serem contornadas.
Mas, vejam que massa!
Por vezes, é aí que a trinca se esgarça.
O mal maior dos que ousam adoçar
as dores de ser com o gáudio
de tangenciar a própria loucura,
sejamos honestos!,
não se restringe às hostes hedonistas
e aos resquícios de sua selvagem malícia.
Mas de todo aquele que se move
em sintonia com o fluxo da vida,
ser desejante, livre da culpa e cônscio
dos deleites que lhe são, por princípio, devidos.
Na contramão das possibilidades
pouco há que se faça frente ao imperativo
incontornável da natureza.
Como se não bastasse o inço que se cria
na pequena horta que cultivamos pela vida,
premidos a reduzir o já restrito
círculo dos chamados "amigos",
uma lei não escrita no livro dos homens
assegura que, ao fim do prazer,
nada mais resta que a dor, expressa
na inapelável sentença "derevaum seraum".
E, pouco a pouco, a brecha que resta se fecha,
para nos fazer tijolos no muro das memórias...

Eliseo Martinez
08.09.2024