"Derevaum seraum!"
no peculiar amálgama de ordem necessária,
caos inevitável e o incalculável do acaso,
clivada de boas intenções
e contraditórios interesses dissimulados,
que estorvo maior que o próximo,
corroendo o mito dos camaradas
compartilhando seus sonhos com os nossos.
No trânsito congestionado de humanos,
disputando esperanças mal plantadas
pelos conturbados canteiros urbanos,
o que pode ser ameaça maior
ao simulacro da liberdade
do que regras e leis previamente fixadas
na ferrenha rinha diária
de cada um contra todos
pelas arenas de toda parte?
Enredados na teia das circunstâncias,
onde realidades circundantes
são naturalmente veladas,
operam-se mais do que as leis já postas,
aguçando o gozo privado em negligenciá-las
por trás das portas,
à meia-luz dos castiçais de prata
ou nas sombras que dançam
sob lamparinas de lata.
Para além das conhecidas mazelas,
não faltam amarras das quais pouco se fala.
Véus interpostos entre nós e o mundo
encobrem leis imutáveis,
sem meios de serem contornadas.
Mas, vejam que massa!
Por vezes, é aí que a trinca se esgarça.
O mal maior dos que ousam adoçar
as dores de ser com o gáudio
de tangenciar a própria loucura,
sejamos honestos!,
não se restringe às hostes hedonistas
e aos resquícios de sua selvagem malícia.
Mas de todo aquele que se move
em sintonia com o fluxo da vida,
ser desejante, livre da culpa e cônscio
dos deleites que lhe são, por princípio, devidos.
Na contramão das possibilidades
pouco há que se faça frente ao imperativo
incontornável da natureza.
Como se não bastasse o inço que se cria
na pequena horta que cultivamos pela vida,
premidos a reduzir o já restrito
círculo dos chamados "amigos",
uma lei não escrita no livro dos homens
assegura que, ao fim do prazer,
nada mais resta que a dor, expressa
na inapelável sentença "derevaum seraum".
E, pouco a pouco, a brecha que resta se fecha,
para nos fazer tijolos no muro das memórias...
Eliseo Martinez
08.09.2024
Nenhum comentário:
Postar um comentário