505.
Os Outros
meio bichos, meio humanos,
salvos pelo instinto,
contornando desenganos.
Na aposta de todo o dia,
condenados a uma triste alegria,
batemos ponto na fila da esperança,
entre um turno e outro,
comendo da mesma marmita fria
nos seis dias da semana.
O nosso é o bloco dos esquecidos,
mas mesmo que tu não vejas,
somos os que levantam tuas paredes,
os que cozem as roupas que te vestem,
os que calçam as ruas
em que transitas teu carro novo,
os que te livram das sobras
do festim do teu consumo
sem, muitas vezes,
ter o que por na mesa,
dando alento ao estômago
das bocas que se põe no mundo.
A balança foi aferida com cuidado,
sempre pendendo para um só lado
e muitos de nós ainda creem
que foi o destino que nos fez errados.
Mas sonhar, nós também sonhamos
e em nossos sonhos loucos
já não seremos nós, seremos outros,
confiantes no credo imposto
em que fomos batizados,
conformados com o arranjo feito,
sem que nos tenham consultado.
Antes mesmo de qualquer herói
que te inspire,
somos o homem invisível,
malabares das esquinas,
sob as luzes de faróis e sinaleiras,
a espera da vergonha
contida em teu sorriso rijo
ou da moeda que, a contra gosto,
sacas da algibeira.
Eliseo Martinez
13.06.2025