Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 17 de junho de 2025

505.

Os Outros

Assim mesmo é que nos vamos,
meio bichos, meio humanos,
salvos pelo instinto,
contornando desenganos.
Na aposta de todo o dia,
condenados a uma triste alegria,
batemos ponto na fila da esperança,
entre um turno e outro,
comendo da mesma marmita fria
nos seis dias da semana.
O nosso é o bloco dos esquecidos,
mas mesmo que tu não vejas,
somos os que levantam tuas paredes,
os que cozem as roupas que te vestem,
os que calçam as ruas
em que transitas teu carro novo,
os que te livram das sobras
do festim do teu consumo
sem, muitas vezes,
ter o que por na mesa,
dando alento ao estômago
das bocas que se põe no mundo.
A balança foi aferida com cuidado,
sempre pendendo para um só lado
e muitos de nós ainda creem
que foi o destino que nos fez errados.
Mas sonhar, nós também sonhamos
e em nossos sonhos loucos
já não seremos nós, seremos outros,
confiantes no credo imposto
em que fomos batizados,
conformados com o arranjo feito,
sem que nos tenham consultado.
Antes mesmo de qualquer herói
que te inspire,
somos o homem invisível,
malabares das esquinas,
sob as luzes de faróis e sinaleiras,
a espera da vergonha
contida em teu sorriso rijo
ou da moeda que, a contra gosto,
sacas da algibeira.

Eliseo Martinez
13.06.2025

segunda-feira, 9 de junho de 2025

504.


O Povo diz que fica!


Duas casas, casamatas,
com traço de arquiteto,
lindamente projetadas,
uma côncava, outra convexa,
feito duas bacias,
boca abajo, boca arriba,
de tão pouca serventia
aos que colocaram lá
os novos mestres da hipocrisia,
sempre de costas aos que
esquentam cu nas galerias.
Uns poucos bravos
em defesa do povo;
no mais, sabujos,
pau-mandados, ávidos
por um tal secreto orçamento
que lhes enche os bolsos,
em meio as regalias do mandato.
E o anel de ferro forjado
sob auspícios da burguesia,
de banqueiros, larápios, bispos
ao agro, movido a subsídios,
fecha-se lentamente em torno
do inconveniente divergente,
que põe a nu os crimes
do infame bando de parasitas,
sempre pronto a regar
a flor descolorida da injustiça
no canteiro das crises
por ele mesmo produzidas.
O país? Que se dane!
O que conta é o que se ganha,
jogar o jogo e ficar rico.
Mas o povo, que não é burro,
diz, com nojo, na cara
dos corruptos e golpistas:
Glauber fica!

Eliseo Martinez
09.06.2025